O sistema “familialista” do FCP

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Nota introdutória: este artigo tem cerca de 4 anos. Nunca foi publicado antes mas parece-me que está mais actual do que nunca. Por isso vê a luz do dia agora na FOOTBALL IDEAS com a respectiva vénia ao seu autor.

Tenho lido nos últimos tempos que alguns adeptos do Futebol Clube do Porto estão muito apreensivos com a saída, mais do que previsível, de José Mourinho. Apesar de ser portista, simpatizante e sócio (com as cotas em atraso, sublinhe-se; deixei de pagar cotas no momento em que Octávio assumiu a liderança técnica da equipa; foi a única forma digna que encontrei para expressar o meu protesto), apesar de ser portista, repito, devo dizer que não estou nada preocupado com a saída de José Mourinho. Por uma razão muito simples: o FCP não é só o Mourinho. Há anos que defendo que o meu clube se alicerça num modelo familialista composto por um Pai, uma Mãe e um conjunto de irmãos mais velhos. 

Comecemos pelo Pai: Pinto da Costa. Patriarca incontestado sem Édipo à altura, defensor intransigente dos seus filhos. Ai de quem os atacar! Quem não se lembra da forma como o Pai defendeu o filho Paulinho Santos quando este deu uma cotovelada no João Pinto? Ou do modo como recentemente defendeu Vítor Baía, que foi apelidado de “produto de marketing” por um jornalista português? São apenas dois exemplos, mas poderia enumerar muitos mais. Nestas alturas, o Pai age sempre da mesma forma: protege os seus, ataca violentamente os adversários e transmite uma enorme segurança a toda a equipa. Os filhos agradecem e não destabilizam. Porque o mais importante é manter a estabilidade psíquica e anímica da irmandade. Porém, não se pense que o Pai ama os seus filhos de modo incondicional. De forma alguma. Pinto da Costa, como qualquer pai tradicional, exige muito dos seus filhos e castiga-os exemplarmente se estes não cumprirem as regras da família. São também célebres os castigos que o FCP impôs e continua a impor aos seus filhos, ao ponto de serem remetidos para a equipa B excelentes jogadores que se “portaram mal”. Os exemplos são uma vez mais incontáveis e bem conhecidos, dispensando-me por isso de ter de os descrever.

 

Mas Pinto da Costa não está só e soube rodear-se de uma comunidade de irmãos mais velhos, do passado e do presente, que têm um papel fundamental na equipa. Refiro-me a André, João Pinto, Aloísio, só para citar alguns exemplos, que tiveram um papel estruturante no passado e continuam a ter, ainda que de outra forma, no presente. São estes irmãos mais velhos do passado que, conjuntamente com os irmãos mais velhos do presente – Jorge Costa, Vítor Baía –, asseguram a harmonia da equipa e permitem que os outros irmãos se esforçem e não prevariquem. Mas não só. Estes irmãos mais velhos funcionam também como exemplos a seguir. Estão de corpo e alma no clube, vestem literalmente a camisola e são os que muitas vezes recebem os ordenados mais baixos. De certa forma é compreensível: os seus planos de carreira não se fazem a curto mas sim a longo prazo. Contudo, enquanto jogarem, darão tudo que têm, puxarão pela equipa e não deixarão que os irmãos mais novos vacilem. Ou seja, liderarão pelo exemplo.

 

José Mourinho aparece aqui como um tipo especial de irmão mais velho (a expressão “irmão mais velho” aplicada a Mourinho não é minha, mas sim do próprio Pai). Especial porque sabe que está de passagem. No entanto, o seu desempenho terá de assemelhar-se ao dos irmãos mais velhos: zelar pelos mais novos, não deixar que esmoreçam e sobretudo trabalhar muito com grande profissionalismo. Em suma, e uma vez mais, liderar pelo exemplo. Não quero com isto diminuir o enorme mérito de José Mourinho e sobretudo o trabalho extraordinário que realizou nos dois anos e meio que esteve no FCP. Longe de mim tal coisa. Tenho por Mourinho uma admiração extraordinária e desejo-lhe as maiores felicidades no estrangeiro (em Portugal o caso é diferente: só lhe desejo felicidades, evidentemente, se voltar a ser treinador do Porto ou da equipa nacional). O que eu quero sublinhar é que tenho a certeza que o FCP saberá tornear esta situação e contratar um bom treinador que integrar-se-á na família e manterá a eficácia a que o Porto nos habitou nos últimos anos. Muito provavelmente não conseguirá manter o nível extraordinário destas duas últimas épocas, mas isso é perfeitamente compreensível. Nunca a fasquia esteve tão alta e épocas destas acontecem raras vezes na vida de qualquer clube. Seja ele qual for: Manchester, Real de Madrid, Milan, etc.

 

Resta-me falar da Mãe. A Mãe de uma família tradicional, como todos os filhos sabem, deverá ser recatada, calorosa e estar sempre disponível. Deverá ainda, ao contrario do pai, amar os seus filhos incondicionalmente e, se for necessário, colocar alguma “água na fervura” sempre que os filhos se portem mal e tenham de ser castigados. Ora, no FCP esse papel é desempenhado na perfeição por Reinaldo Teles, uma figura menos visível e frequentemente esquecida pela comunicação social. Quero aqui deixar uma homenagem sentida, e mais do que merecida, a essa figura maternal do meu Clube. Reinaldo Teles tem tido um papel fundamental, estrutural e estruturante, no Futebol Clube do Porto. É ele que resolve os problemas da “prole”; é ele que providencia para que nada falte aos seus amados filhos; e estes agradecem e vivem descansados porque sabem que têm ali uma Mãe extremosa que assegura que nada de mal lhes aconteça.

 

Por tudo isto, termino como comecei. Não me preocupa que o Mourinho deixe o clube. Como já disse, existem bons treinadores no mercado e tenho a certeza que qualquer treinador de nível internacional terá sucesso no FCP. Não se esqueçam que, pasme-se, até Fernando Santos conseguiu ganhar um campeonato nacional no FCP e Artur Jorge uma Taça do Campeões Europeus! O problema chegará quando o pai e a mãe saírem. Será que a família conseguirá sobreviver a essa futura (é a lei da vida) orfandade? Nessa altura, aí sim, ficarei apreensivo. Porque não me apetece viver os últimos anos da minha vida “à Benfica”. Não me estou a imaginar a dizer frases do tipo: “- sabes, meu neto, no meu tempo quem ganhava tudo era o Futebol Clube do Porto…” Ámen.”

 

Diniz Cayolla Ribeiro,

Maio de 2004

  

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