Porto Sentido VIII – “Uma tarde inglória no estádio da vergonha”
Domingo, Maio 25th, 2008
Mas o Porto, na verdade, quase que entrou a perder nesta final. A começar por mais um caso protagonizado por José Bosingwa, que até na despedida fez jus à fama de problemático. Mesmo sendo o jogador portista com mais mercado, viu-se envolvido num negócio apressado de contornos pouco claros que o afastaram deste grande jogo. É de estranhar que os dirigentes azuis e brancos não tenham tido arte e engenho negociais para permitir que o lateral alinhasse no Jamor…
A impossibilidade de utilizar Bosingwa conduziu ao primeiro erro de Jesualdo: a aposta em João Paulo para a esquerda da defesa, quando até era Lino quem vinha assumindo o lugar nos últimos jogos, dando bons apontamentos no capítulo ofensivo, em especial na cobrança de livres. Mostrou, mais uma vez, ser um treinador medroso nos jogos decisivos – foi assim em Alvalade para o campeonato, foi assim em Anfield Road, foi assim em Gelsenkirchen. E ficou provado que há um padrão: sempre que o Professor inventa o Porto perde.
A aposta em Mariano não se pode considerar um erro. O argentino tem evoluído e até mostrou bons apontamentos. Contudo, um 4×3x3 pede que se estique o jogo para as linhas e Mariano não o faz, pois flecte muito para dentro. Bem diferente de Tarik, que “puxa” o jogo para as linhas laterais, emprestando depois uma maior extensão e verticalidade ao jogo portista. Ora, ao ter jogadores como João Paulo (um dextro na esquerda tem sempre tendência a afunilar) e Mariano, o jogo do Porto pode ganhar poder de choque, mas fica naturalmente sem largura e sem imprevisibilidade.
E por fim, há que referir a notória falta de ritmo de jogadores como Pedro Emanuel, Assunção, Lucho e Lisandro, que estiveram bastantes furos abaixo do que se lhes reconhece. Jesualdo optou por dar minutos aos menos utilizados nos últimos jogos da época e nada lhe pode ser apontado por isso. Mas sem dúvida que hoje em dia o ritmo e a intensidade são importantíssimos, ainda para mais frente a um Sporting super motivado e com os níveis de concentração em alta fruto da aguerrida luta pelo 2º lugar no Campeonato. Assunção e Lucho pareceram sempre sem andamento para Veloso, Moutinho e Romagnoli. Faça-se aqui uma excepção ao super-guerreiro Raul Meireles que, sozinho, merecia ter erguido a Taça de Portugal.
O Sporting foi sempre a equipa que mais procurou o golo e só por isso a vitória assenta-lhe bem. Não enveredo pela fácil desculpa da arbitragem. É notório que Olegário Benquerença fez um mau trabalho, mas não foi por aí que o Porto perdeu. No estádio, para ser sincero, nunca me deu aquele feeling de que o Porto ia ganhar. Não dá para explicar… mas sente-se.
Como adepto ferrenho do meu clube, desloquei-me a Lisboa para assistir in loco a um dos jogos com mais história no futebol português. Mas, a cada ano que passa, cada vez me é mais penoso sentar nas bancadas do Jamor na Final da Taça de Portugal.
À entrada tudo parece perfeito. Os autocarros vão chegando, os adeptos de ambas as equipas vão-se espalhando pelo pinhal em redor do estádio, o convívio vai-se fazendo em volta da sardinha assada, da bifana, do queijo e do chouriço, acompanhados de vinho verde ou vinho tinto, consoante os gostos (já estão a ver onde é que isto vai dar…).
Aos poucos, as pessoas lá decidem encaminhar-se para o interior do estádio. As entradas processam-se praticamente todas pelo mesmo local, o que faz com que o comum adepto se misture e até comunique com ex-futebolistas, secretários de Estado, comentadores desportivos, jornalistas conhecidos, presidentes de clubes, entre outras distintas figuras. E essa entrada comum serve também para ver passar o Presidente da República e toda a sua comitiva em grandes carros pretos de vidros fumados, com luzinhas a piscar, o que faz vibrar a multidão.
Já nas bancadas, depois de um aflitivo descer de escadas, deparamo-nos com a dificuldade de nos sentarmos nos lugares destinados. Ora porque no nosso lugar está sentado um indivíduo com um crachá de convidado da federação; ora porque a nossa zona está invadida por adeptos que, sem qualquer pudor, afirmam que compraram bilhetes para a “superior” mas, espertos como são, conseguiram vir para a “central”. Não é muito difícil adivinhar onde é que estes “deslocados” se vão sentar. Nas escadas, pois claro!, dificultando assim o acesso dos outros às suas cadeiras. As escadas, essas, estão já sulcadas por inúmeros cabos necessários à transmissão televisiva, de modo a que nada possa falhar lá em casa.
Lá em baixo, sobre o muro da bancada, está o famoso “Animal” que, fruto de uma t-shirt da SIC que alguém lhe ofereceu, foi promovido a animador oficial da Festa. No relvado, enquanto os jogadores aquecem, as meninas de uma empresa de serviços por cabo preparam-se para as danças estilo cheerleading, tentando que os adeptos se esqueçam que isto é um jogo de soccer, não de futebol americano. E, como se sabe, sardinhas assadas e cheerleaders sempre combinaram bem.
E, claro, há o sempre bonito e insistente apelo ao fair-play: Ou são as revistas colocadas nos assentos cuja capa apresenta os líderes das duas claques (sorridentes) a apertarem a mão (quem mais se não os líderes das claques podia clamar pelo fair-play?); ou são as crianças equipadas a rigor a representar um Porto X Sporting versão “Jamor dos Pequeninos”.
Imediatamente antes do apito inicial, surge a banda da GNR para tocar o Hino Nacional. Neste momento de exaltação patriótica, uns decidem continuar a puxar pelo seu clube, outros colocam a mão no peito e cantam e ainda outros há que se viram para trás (para a tal tribuna de honra), de modo a cantarem o hino de frente para o Presidente da República, aproveitando para tentar descortinar quem são os outros ilustres que ao seu lado se sentam ou porque simplesmente pensam que o Prof. Cavaco Silva é a representação viva da alma lusitana no planeta Terra.
Contudo, mal soa o apito inicial tudo muda. Os nervos de uma final podem transformar tudo de bom que o futebol encerra em tudo de mau que ele por vezes potencia. Junte-se a isto um fora-de-jogo mal assinalado, um cartão vermelho, uma ou outra entrada mais ríspida não sancionada, um ou dois penalties por assinalar, adeptos completamente misturados na bancada central sem qualquer divisão estratégica, gritos de lagartos e de andrades, quatro petardos, uma carga policial e os últimos 15 minutos assistidos debaixo de chuva e temos os ingredientes necessários para se preparar um cocktail explosivo.
À saída é fácil de ver o que acontece. O comentador desportivo da equipa rival já não merece assim tanto respeito, muito menos o secretário de Estado, seja ele do Desporto, seja ele das Pescas. A sardinha assada caiu mal. O vinho causa alegria ou tristeza exagerados, conforme o gosto clubístico. A zona de imprensa, mal resguardada e sem o mínimo de condições, é presa fácil para o insulto gratuito e para uma ou outra garrafa de plástico atirada não se sabe de onde. E as escadas, completamente lotadas, não avançam, o que faz com que a chuva ainda irrite mais. A polícia, coitada, fechando e abrindo cordões denota o zero que é a sua estratégia. E as escadas e a chuva começam a formar poças de lama, fruto do pinhal das imediações. Tal como o estado do tempo, o ambiente transformou-se completamente. Do sol do apito inicial passamos para a chuva do prolongamento; do são convívio passamos para o confronto.
Chega a haver quem roube cachecóis leoninos (como eu vi) e os comece a queimar. É este tipo de gente que dá mau nome ao clube e que é preciso erradicar de vez do FC Porto. Mas ainda há quem ache piada aos cânticos de que são os dragões que partem tudo…
Enfim… pena tenho eu que Eça de Queiroz não seja vivo e não possa ser ele a descrever uma Final no Estádio Nacional. Fá-lo-ia de forma incomparavelmente mais sarcástica e irónica que eu e passaria para o papel o alívio que se sente quando finalmente se deixa para trás o Complexo do Jamor.
Não vale a pena tentar recordar a quem manda no futebol português e que está tão preocupado em “limpá-lo” e “modernizá-lo” de que devemos ser o único país da Europa a fazer a Final da Taça num estádio que não tem o aval da UEFA para jogos europeus; não vale a pena invocar o episódio do verylight; nem dizer que, depois do EURO 2004 e do investimento realizado em 10 novos estádios, se torna ridículo jogar a final num local que nem sequer protege da chuva; nem chamar a atenção para as sucessivas cargas policiais; nem implorar para que vejam a falta de condições de segurança daquele lugar quando se podia perfeitamente jogar no Algarve, em Leiria, em Aveiro, em Coimbra, em Braga ou em Guimarães; nem dizer que não vinha mal ao mundo em tirar o jogo da capital num ou noutro ano; nem fazer notar que se podia fazer uma final ao vivo para muito mais pessoas; nem dizer aos defensores da “modernização” (mas que aqui defendem a “tradição”!) que Wembley era Wembley e foi demolido; nem referir que este estádio data do já longínquo ano da graça de 1944, plena época do Estado Novo.
Porque já se viu que, por incrível que pareça, foi mais fácil mudar o regime que mudar o palco das finais da Taça de Portugal. E isto sim, é a vergonha do futebol português. Presenciada em silêncio pela “tribuna de honra”.
A SEMANA
O Manchester bateu o Chelsea nas grandes penalidades após um jogo épico. A sorte de uns é o azar de outros. Cristiano Ronaldo tem a Europa a seus pés, após uma exibição verdadeiramente empolgante com um golo marcado e um penalty falhado, que fazem dele o típico herói português, apesar de, desta vez, as lágrimas terem sido de alegria. John Terry terá que, de novo, arranjar forças para lutar por erguer o troféu máximo da Europa do futebol.
Rodrigo de Almada Martins



