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Porto Sentido VIII – “Uma tarde inglória no estádio da vergonha”

Domingo, Maio 25th, 2008

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Dia 18 de Maio de 2008. Ficará para a história como o dia em que um brasileiro praticamente desconhecido, de nome Tiuí, entrou no relvado do Jamor para marcar 2 golos ao Porto e oferecer mais uma Taça de Portugal ao Sporting.

 

 

 

Mas o Porto, na verdade, quase que entrou a perder nesta final. A começar por mais um caso protagonizado por José Bosingwa, que até na despedida fez jus à fama de problemático. Mesmo sendo o jogador portista com mais mercado, viu-se envolvido num negócio apressado de contornos pouco claros que o afastaram deste grande jogo. É de estranhar que os dirigentes azuis e brancos não tenham tido arte e engenho negociais para permitir que o lateral alinhasse no Jamor…

A impossibilidade de utilizar Bosingwa conduziu ao primeiro erro de Jesualdo: a aposta em João Paulo para a esquerda da defesa, quando até era Lino quem vinha assumindo o lugar nos últimos jogos, dando bons apontamentos no capítulo ofensivo, em especial na cobrança de livres. Mostrou, mais uma vez, ser um treinador medroso nos jogos decisivos – foi assim em Alvalade para o campeonato, foi assim em Anfield Road, foi assim em Gelsenkirchen. E ficou provado que há um padrão: sempre que o Professor inventa o Porto perde.

A aposta em Mariano não se pode considerar um erro. O argentino tem evoluído e até mostrou bons apontamentos. Contudo, um 4×3x3 pede que se estique o jogo para as linhas e Mariano não o faz, pois flecte muito para dentro. Bem diferente de Tarik, que “puxa” o jogo para as linhas laterais, emprestando depois uma maior extensão e verticalidade ao jogo portista. Ora, ao ter jogadores como João Paulo (um dextro na esquerda tem sempre tendência a afunilar) e Mariano, o jogo do Porto pode ganhar poder de choque, mas fica naturalmente sem largura e sem imprevisibilidade.

E por fim, há que referir a notória falta de ritmo de jogadores como Pedro Emanuel, Assunção, Lucho e Lisandro, que estiveram bastantes furos abaixo do que se lhes reconhece. Jesualdo optou por dar minutos aos menos utilizados nos últimos jogos da época e nada lhe pode ser apontado por isso. Mas sem dúvida que hoje em dia o ritmo e a intensidade são importantíssimos, ainda para mais frente a um Sporting super motivado e com os níveis de concentração em alta fruto da aguerrida luta pelo 2º lugar no Campeonato. Assunção e Lucho pareceram sempre sem andamento para Veloso, Moutinho e Romagnoli. Faça-se aqui uma excepção ao super-guerreiro Raul Meireles que, sozinho, merecia ter erguido a Taça de Portugal.

O Sporting foi sempre a equipa que mais procurou o golo e só por isso a vitória assenta-lhe bem. Não enveredo pela fácil desculpa da arbitragem. É notório que Olegário Benquerença fez um mau trabalho, mas não foi por aí que o Porto perdeu. No estádio, para ser sincero, nunca me deu aquele feeling de que o Porto ia ganhar. Não dá para explicar… mas sente-se.

 

Como adepto ferrenho do meu clube, desloquei-me a Lisboa para assistir in loco a um dos jogos com mais história no futebol português. Mas, a cada ano que passa, cada vez me é mais penoso sentar nas bancadas do Jamor na Final da Taça de Portugal.

À entrada tudo parece perfeito. Os autocarros vão chegando, os adeptos de ambas as equipas vão-se espalhando pelo pinhal em redor do estádio, o convívio vai-se fazendo em volta da sardinha assada, da bifana, do queijo e do chouriço, acompanhados de vinho verde ou vinho tinto, consoante os gostos (já estão a ver onde é que isto vai dar…). 

Aos poucos, as pessoas lá decidem encaminhar-se para o interior do estádio. As entradas processam-se praticamente todas pelo mesmo local, o que faz com que o comum adepto se misture e até comunique com ex-futebolistas, secretários de Estado, comentadores desportivos, jornalistas conhecidos, presidentes de clubes, entre outras distintas figuras. E essa entrada comum serve também para ver passar o Presidente da República e toda a sua comitiva em grandes carros pretos de vidros fumados, com luzinhas a piscar, o que faz vibrar a multidão.

Já nas bancadas, depois de um aflitivo descer de escadas, deparamo-nos com a dificuldade de nos sentarmos nos lugares destinados. Ora porque no nosso lugar está sentado um indivíduo com um crachá de convidado da federação; ora porque a nossa zona está invadida por adeptos que, sem qualquer pudor, afirmam que compraram bilhetes para a “superior” mas, espertos como são, conseguiram vir para a “central”. Não é muito difícil adivinhar onde é que estes “deslocados” se vão sentar. Nas escadas, pois claro!, dificultando assim o acesso dos outros às suas cadeiras. As escadas, essas, estão já sulcadas por inúmeros cabos necessários à transmissão televisiva, de modo a que nada possa falhar lá em casa.

Lá em baixo, sobre o muro da bancada, está o famoso “Animal” que, fruto de uma t-shirt da SIC que alguém lhe ofereceu, foi promovido a animador oficial da Festa. No relvado, enquanto os jogadores aquecem, as meninas de uma empresa de serviços por cabo preparam-se para as danças estilo cheerleading, tentando que os adeptos se esqueçam que isto é um jogo de soccer, não de futebol americano. E, como se sabe, sardinhas assadas e cheerleaders sempre combinaram bem.

E, claro, há o sempre bonito e insistente apelo ao fair-play: Ou são as revistas colocadas nos assentos cuja capa apresenta os líderes das duas claques (sorridentes) a apertarem a mão (quem mais se não os líderes das claques podia clamar pelo fair-play?); ou são as crianças equipadas a rigor a representar um Porto X Sporting versão “Jamor dos Pequeninos”.

Imediatamente antes do apito inicial, surge a banda da GNR para tocar o Hino Nacional. Neste momento de exaltação patriótica, uns decidem continuar a puxar pelo seu clube, outros colocam a mão no peito e cantam e ainda outros há que se viram para trás (para a tal tribuna de honra), de modo a cantarem o hino de frente para o Presidente da República, aproveitando para tentar descortinar quem são os outros ilustres que ao seu lado se sentam ou porque simplesmente pensam que o Prof. Cavaco Silva é a representação viva da alma lusitana no planeta Terra.

Contudo, mal soa o apito inicial tudo muda. Os nervos de uma final podem transformar tudo de bom que o futebol encerra em tudo de mau que ele por vezes potencia. Junte-se a isto um fora-de-jogo mal assinalado, um cartão vermelho, uma ou outra entrada mais ríspida não sancionada, um ou dois penalties por assinalar, adeptos completamente misturados na bancada central sem qualquer divisão estratégica, gritos de lagartos e de andrades, quatro petardos, uma carga policial e os últimos 15 minutos assistidos debaixo de chuva e temos os ingredientes necessários para se preparar um cocktail explosivo.

À saída é fácil de ver o que acontece. O comentador desportivo da equipa rival já não merece assim tanto respeito, muito menos o secretário de Estado, seja ele do Desporto, seja ele das Pescas. A sardinha assada caiu mal. O vinho causa alegria ou tristeza exagerados, conforme o gosto clubístico. A zona de imprensa, mal resguardada e sem o mínimo de condições, é presa fácil para o insulto gratuito e para uma ou outra garrafa de plástico atirada não se sabe de onde. E as escadas, completamente lotadas, não avançam, o que faz com que a chuva ainda irrite mais. A polícia, coitada, fechando e abrindo cordões denota o zero que é a sua estratégia. E as escadas e a chuva começam a formar poças de lama, fruto do pinhal das imediações. Tal como o estado do tempo, o ambiente transformou-se completamente. Do sol do apito inicial passamos para a chuva do prolongamento; do são convívio passamos para o confronto.

Chega a haver quem roube cachecóis leoninos (como eu vi) e os comece a queimar. É este tipo de gente que dá mau nome ao clube e que é preciso erradicar de vez do FC Porto. Mas ainda há quem ache piada aos cânticos de que são os dragões que partem tudo…

Enfim… pena tenho eu que Eça de Queiroz não seja vivo e não possa ser ele a descrever uma Final no Estádio Nacional. Fá-lo-ia de forma incomparavelmente mais sarcástica e irónica que eu e passaria para o papel o alívio que se sente quando finalmente se deixa para trás o Complexo do Jamor.

 

Não vale a pena tentar recordar a quem manda no futebol português e que está tão preocupado em “limpá-lo” e “modernizá-lo” de que devemos ser o único país da Europa a fazer a Final da Taça num estádio que não tem o aval da UEFA para jogos europeus; não vale a pena invocar o episódio do verylight; nem dizer que, depois do EURO 2004 e do investimento realizado em 10 novos estádios, se torna ridículo jogar a final num local que nem sequer protege da chuva; nem chamar a atenção para as sucessivas cargas policiais; nem implorar para que vejam a falta de condições de segurança daquele lugar quando se podia perfeitamente jogar no Algarve, em Leiria, em Aveiro, em Coimbra, em Braga ou em Guimarães; nem dizer que não vinha mal ao mundo em tirar o jogo da capital num ou noutro ano; nem fazer notar que se podia fazer uma final ao vivo para muito mais pessoas; nem dizer aos defensores da “modernização” (mas que aqui defendem a “tradição”!) que Wembley era Wembley e foi demolido; nem referir que este estádio data do já longínquo ano da graça de 1944, plena época do Estado Novo.

 

Porque já se viu que, por incrível que pareça, foi mais fácil mudar o regime que mudar o palco das finais da Taça de Portugal. E isto sim, é a vergonha do futebol português. Presenciada em silêncio pela “tribuna de honra”.

 

A SEMANA

 

O Manchester bateu o Chelsea nas grandes penalidades após um jogo épico. A sorte de uns é o azar de outros. Cristiano Ronaldo tem a Europa a seus pés, após uma exibição verdadeiramente empolgante com um golo marcado e um penalty falhado, que fazem dele o típico herói português, apesar de, desta vez, as lágrimas terem sido de alegria. John Terry terá que, de novo, arranjar forças para lutar por erguer o troféu máximo da Europa do futebol.

 

 

Rodrigo de Almada Martins 

Porto Sentido VII – “Tanto Porto!”

Quinta, Maio 8th, 2008

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Da última vez que escrevi neste espaço, o Porto ainda mal se levantava do knock-out aplicado pelos alemães do Schalke 04. Foi um choque. A todos pareceu que o Porto era equipa para muito mais do que os oitavos-de-final desta Champions. Pareceu e continua a parecer, pois a cada dia que passa o mundo futebolístico nacional vai-se convencendo da grandíssima valia desta formação.

Mais de dois meses volvidos dessa queda às mãos de Neuer, o Porto já lambeu as feridas, que actualmente estão mais do que cicatrizadas. A confirmação do tri-campeonato com uma goleada de 6-0, a vitória inequívoca sobre o Benfica e a máquina trituradora que passeou classe em Guimarães vieram devolver o sorriso às faces azuis e brancas.

O tri foi óbvio. Foi a última página de uma crónica de um campeonato anunciado. Sem margens para dúvidas e contestações, o Porto mostrou ser um super-campeão. E confirmou-o frente ao rival da Luz. Os olés com que o público brindou os encarnados logo no minuto inicial, além de perfeitamente dispensáveis, só serviram para distrair os jogadores. Quando os adeptos acalmaram e se aperceberam que aquele jogo não era uma festa mas sim uma oportunidade de garantir mais três pontos, Lisandro atirou sem pedir licença para o fundo das redes de Quim. E na segunda parte repetiu o gesto, qual toureiro argentino espetando as bandarilhas no animal já moribundo.

Foi um segundo tempo brilhante do FC Porto, que encostou o seu adversário às cordas como se este não precisasse de ganhar o jogo. Além da exibição e dos festejos, o ponto alto da noite foi, quanto a mim, aquele sprint de vários metros de Lisandro que culminou com um carrinho e roubo de bola ao uruguaio Rodriguez. Eu tive a sorte de estar desse lado da bancada e de ver com os meus olhos o público a levantar-se no iniciar da corrida, a incentivar o esforço, a aplaudir a garra e o querer, a acreditar que seria mesmo possível aquele roubo de bola… até que, com um carrinho fantástico o melhor marcador deste campeonato fica com a bola para ele e entrega-a com toda a classe a um colega. O público aí já só via Lisandro López em campo, o exemplo máximo de um “jogador à Porto”.

Como nota negativa apenas aponto os tais olés e os cartazes dos Super Dragões que incluíram a fotografia de Rui Costa com um chapéu de bombo da festa, o que é manifestamente dispensável, já que estamos a falar de um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos e com um currículo imaculado a nível de fair-play. Rui Costa não o merecia, muito menos no seu ano de despedida dos relvados. Como Baía ou Figo, por exemplo, também não o mereceriam. São símbolos de Portugal, independentemente das suas cores de coração. E a claque, está mais que visto, não é o espelho dos adeptos portistas, porque estes já mostraram ao longo dos anos que sabem ganhar. Foi pena que Rui Costa não tivesse sido substituído no Dragão, de modo a que o povo azul-e-branco lhe pudesse prestar o merecido tributo: uma grande ovação.

A deslocação a Guimarães acabou por confirmar o que todos sabiam e não queriam ver: o Porto não faz favores a ninguém. Nem se preocupa com quem vai atrás de si. Muito atrás aliás. A vitória por 5 golos sem resposta no reduto do 2º classificado – que tinha todo o interesse em vencer para garantir o mais rápido possível a qualificação directa para a liga milionária – é demonstrativa de que nunca como este ano o 2º classificado foi tão o 1º dos últimos. Claro que esta posição do Vitória, a confirmar-se, será histórica e ficará para sempre guardada nos corações dos vimaranenses. Mas ninguém poderá esconder a quase embaraçosa vantagem de mais de 20 pontos para os rivais históricos de Lisboa.

Esta questão encerra um problema bastante mais grave do que se possa pensar. A actual má forma das águias e leões não os prejudica apenas a eles mesmos. Prejudica todo o futebol português, incluindo – por mais estranho que isto possa soar – os dragões. O campeonato português, a este ritmo, tenderá a transformar-se num feudo do FC Porto, à semelhança do que se passa em França com o Lyon, que caminha – pasmem-se! - para o heptacampeonato. Em França há o Lyon e os outros. Em Portugal arriscamo-nos a uma BWIN Liga com o Porto e os outros. E isso é prejudicial para todos. Atente-se, como exemplo, no caso do Lyon na Liga dos Campeões. Partem sempre como uma grande promessa e, mal lhes sai no sorteio uma equipa com alguns pergaminhos, ficam pelo caminho. E com o Porto, este ano, passou-se exactamente o mesmo. E a isso não é alheia a falta de competitividade do nosso campeonato, onde os jogos, mesmo com os rivais, têm pouco ritmo e intensidade.

Esta falta de competitividade interna faz com que a massa adepta do FC Porto já não se contente com o campeonato. A verdade é que estamos acostumados a ganhar. Somos uns meninos mimados, mal habituados. Daí que se tenha notado que a festa já não tem a intensidade de outras épocas. É verdade! O campeonato já não nos enche as medidas. No horizonte azul e branco a Liga dos Campeões é uma realidade.

Prematuramente eliminados da Europa do futebol e com o tri no bolso, o plantel às ordens do Professor Jesualdo Ferreira vai gerindo o seu esforço à espera da Taça de Portugal. O Porto vai gerindo e vai ganhando. E quando ganha (com brilho, diga-se!) não amealha apenas pontos, amealha também futuro. Foi isso que aconteceu em Guimarães. Enquanto uns aproveitam para descansar dos inúmeros jogos nas pernas (caso de Lucho González) e outros se mostram aos olhos das grandes equipas europeias (como Quaresma que, sem qualquer tipo de pressão nos seus ombros, abriu o livro e derramou magia no relvado do D. Afonso Henriques. Porque não jogar sempre assim, Ricardo?), Bolatti, Mariano, Stepanov, Kaz, Farías e até Lino servem-se destes encontros para se assumirem como potenciais reforços para a época 2008/2009 (e até Adriano renasceu para os golos!). A fase de adaptação foi a presente temporada, a próxima será para explodir. E todos nós portistas cada vez temos mais fé nestes jogadores, especialmente em Bolatti, Mariano e Stepanov.

O Porto de Jesualdo dirige-se, assim, em piloto automático para o Jamor. Tirando a novela em torno da cada vez menos provável renovação de Paulo Assunção (espero que a Direcção faça todos os possíveis para manter este super atleta), o Porto vive nas nuvens. E descerá à terra, se tudo correr bem, para conquistar a Taça de Portugal e assim fazer a famosa dobradinha. “Será este o Porto mais forte a nível interno dos últimos anos?”, muitos têm colocado esta questão. Da minha parte a resposta está dada: SIM.

 

 

A SEMANA

 

1 – Mário Jardel (em tempos o Super-Mário) regressou a Portugal depois de ter assumido que tem consumido cocaína nos últimos anos. É impossível deixarmos de sentir pena de um homem que teve Portugal a seus pés após 5 ou 6 épocas a fazer sempre mais de 30 golos e que só os seus sonhos megalómanos o fizeram chegar a este estado. A história de Jardel faz lembrar as lembranças dos nossos pais e avós acerca de determinados grandes jogadores de tempos idos que acabaram na miséria devido a álcool e mulheres. Esperemos que Jardel dê um novo rumo à sua carreira, sob pena de eu também ter que contar esta triste história aos meus filhos.

 

2 – Chelsea X Arsenal. Grandíssimo jogo. E suprema das ironias: Avram Grant, actual treinador do Chelsea, consegue qualificar os blues para a mais importante final a nível de clubes. Fez aquilo que José Mourinho desesperadamente tentou e não conseguiu ao serviço dos londrinos. E o israelita, que resistiu aos cânticos de come back Mourinho, às bocas dos jogadores, às críticas dos jornais e à descrença geral no futuro do clube, não só está na final da Champions League, como também disputa a Premier League taco a taco – estão em igualdade pontual - com a equipa de Sir Alex Ferguson, tida por muitos como imbatível na presente temporada. O futebol europeu transformou-se, por estes dias, numa luta entre Manchester United e Chelsea. Num duelo, quem sabe, entre Cristiano Ronaldo e Didier Drogba. Cá estaremos para ver, em Moscovo.

 Rodrigo de Almada Martins

 

 

nota: o Rodrigo escreveu esta crónica antes do Porto-Nacional. A culpa foi minha que não a pude publicar mais cedo… (João Nuno Coelho) 

Porto Sentido VI – “Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?”

Segunda, Maro 24th, 2008

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Depois de sair do metro olho para o relógio: 20h10. Ainda é cedo para ir para o meu lugar anual, pelo que me encaminho para o Porta 29, o café onde os portistas costumam enganar os nervos à medida que o apito inicial do árbitro se aproxima. Cheira a Liga dos Campeões. É difícil de explicar, mas os jogos europeus encerram um encanto especial. Há algo de nobre e de histórico em duas equipas de países diferentes se defrontarem a 2 mãos, a eliminar.

Num dos ecrãs do tal café reparo que Mirko Slomka optou por deixar o irrequieto Rakitic e o possante Asamoah no banco, apostando num 11 mais defensivo. Isso favorece-nos, penso para os meus botões. Sempre ouvi dizer que quem joga para empatar acaba por perder.

Depois do café, para aquecer a garganta (nunca se sabe se vai ser preciso puxar pela equipa…), dirijo-me para o meu sector. Quando, por fim, começo a vislumbrar o relvado e todo o esplendor do nosso estádio completamente lotado realizo que estou mesmo num jogo da Champions. Nos oitavos-de-final da mais importante competição de clubes do Mundo.

O jogo começa e estamos nitidamente com sinal mais. Trocamos bem a bola, com intensidade, o público está a vibrar com a atitude desinibida da equipa. De repente vem-me à memória o Porto – Manchester da época de Gelsenkirchen. O jogo parece-me semelhante. Bosingwa a cavalgar pelo lado direito tal qual Paulo Ferreira o fez uns anos atrás. Só que desta vez estamos na 2ª mão da eliminatória. E em desvantagem. E não temos McCarthy. Nem Deco. Nem Ricardo Carvalho. E num ápice reparo que Bosingwa é melhor que Paulo Ferreira; que este Lisandro é melhor que o McCarthy; que Lucho se equipara a Deco; que Bruno Alves não está assim muito distante de Carvalho; que Assunção, por exemplo, é imprescindível, tal qual era Costinha.

2004 já lá vai. Estamos no ano da graça de 2008 e a ambição é a mesma: ganhar! O Lisandro já poderia ter marcado logo aos 12 minutos, mas o guarda-redes fez muito bem a mancha. Ouço atrás de mim uns amigos meus a questionarem-se sobre se este guarda-redes não é o tal que foi apanha-bolas na final entre Porto e Mónaco. Sim, é ele. E todos nós estivemos em Gelsenkirchen, mas na altura ninguém queria saber do apanha-bolas para nada. Não que interesse muito, mas alguém se lembra que o rapaz se chama Neuer. “É bom guarda-redes”, ouço dizer.

Atenção! Jogada pela direita, a plateia azul e branca levanta-se para ver melhor este foguete supersónico que dá pelo nome de Bosingwa. O lateral vai à linha e cruza… bola na cabeça de Tarik, já estamos quase a festejar, não pode falhar…a bola vai para a baliza, já se grita GOOL… mas não! O tal ex-apanha-bolas defende inacreditavelmente para canto! Defesa monstruosa! Como é possível Tarik?

Mas o público não desarma. Está tudo confiante de que a noite é nossa. Os alemães resumem-se a bolas bombeadas para Kuranyi, sem qualquer nexo. Os médios Jones e Ernst não conseguem pegar no jogo. Por isso, há que acreditar! No íntimo penso que este Schalke afinal é um embuste. Tem alguns bons jogadores, é certo. São fortes fisicamente, correcto. Defendem-se bem. Mas a verdade é que aqueles 15 minutos iniciais na Alemanha parecem-me uma mentira completa. Não sei o que terá sido: se o público alemão a puxar pela sua equipa; se a invenção de Jesualdo ao colocar João Paulo a defesa direito; se o mau início de Fucile; se uma estratégia desesperada dos alemães que, sabendo serem inferiores ao FC Porto, optaram por essa fórmula do “vamos para cima deles, vamos comê-los logo no início, vamos surpreendê-los porque só assim lhes podemos ganhar”!

O intervalo chega e o Porto tem cerca de 3 oportunidades claras de golo. O estádio está ansioso, nervoso… mas crente. É hora de ir discutir pormenores sobre o jogo com os amigos. E também de ir junto do sector dos adeptos do Schalke na tentativa de tentar fazer uma troca de cachecóis. Depois de algumas “negas” lá aparece um senhor disposto a efectuar a troca. E aí está mais um cachecol para a minha colecção!

A 2ª parte começa. Nestes 45m temos que dar o tudo por tudo. Não merecemos estar em desvantagem. Já merecíamos um golo. Mas há que batalhar pela sorte. Vamos para cima deles!

Contudo, esta crença na vitória é abalada por um adepto mais perspicaz: “reparem, ali ao fundo, o Bosingwa não está em condições, vai ter que sair”. Os olhares encaminham-se para lá. Dá-se o pior dos cenários. Bosingwa ressente-se da lesão e tem que sair. E agora? Como vamos atacar em velocidade? E logo o Bosingwa, que estava a ser dos mais perigosos! O quê? Mariano para o lugar dele? O que se passa com Jesualdo? Confesso que não percebo. Mas vamos dar o benefício da dúvida ao homem. Afinal de contas, hoje não é dia de protestar, mas sim de apoiar a equipa.

Livre para o Porto. Vai bater directo? Não! Sai cruzamento para o segundo poste, o Lucho ganha para a pequena área onde aparece Tarik a… tem que ser golo… o estádio já está de pé…esta tem que entrar…gargantas prestes a explodir… NÃO! O guarda-redes defende! O tal Neuer, não é? Que defesa impossível! Mas o Tarik não está isento de culpas! Alguns adeptos começam a praguejar o marroquino. Falhou dois golos certos! O Henri Michel bem tem razão. Este Tarik é mesmo “o homem dos grandes golos”. Parece que só consegue marcar golos geniais. Os fáceis não são para ele. Se é para entrar na história, tem que entrar em grande! A facilidade não o atrai. Mas Jesualdo percebe e bem que nestas alturas este tipo de jogadores são dispensáveis. Por isso decide lançar Farias, por troca com o extremo do Magrebe.

 

Ao meu lado ouço frases do estilo “já vi tudo, hoje vai ser daqueles dias em que por mais que tentemos ela não entra”, “hoje a sorte não quer nada connosco”; “podíamos estar ali mais 4 horas que ela não ia entrar”. Mas eu, pelo contrário, estou feliz. Feliz porque afinal este Porto é mesmo bom! Temos equipa para encostar uma formação europeia às cordas. Os pupilos do Mestre Jesualdo Ferreira conseguem fazer com que os adeptos se embrenhem no jogo, gritando, assobiando, berrando pela equipa. De facto, há muito que não via assim o Dragão: entusiasmado. São estes jogos que motivam os adeptos e os apreciadores deste desporto. E eu, sendo adepto e apreciador ao mesmo tempo, estou duplamente feliz. Estou totalmente concentrado no jogo. No espectáculo.

 

Helton acaba de defender com as mãos fora da área, liquidando um contra-ataque dos visitantes. Quase todos no estádio se apercebem. Não é sancionado. A arbitragem está a ser esquisita. O juiz da partida assinala falta por tudo e por nada. Parece pouco seguro a apitar, pouco confiante. Mas falemos de futebol!

 

Já só faltam 15 minutos para o término do desafio. Confesso que as sucessivas defesas do Neuer me tiram grande parte da esperança numa mudança de rumo dos acontecimentos. Nem da pequena área, nem de longa distância, nem no jogo aéreo os portistas conseguem introduzir a bola na baliza do Schalke. O público quebrou muito. O estádio está mais silencioso, mais apático. Já poucos acreditam numa reviravolta. E ainda vou acreditando, mas de forma muito ténue. É pena! Somos a melhor equipa, mas falta-nos aquilo que tem faltado nos últimos tempos do futebol português: o killer instinct, nas palavras de Sir Bobby Robson. Frente às balizas como que um medo cénico se acerca das equipas nacionais e transforma avançados de barba rija em bebés de colo.

 

Faltam 8 minutos. Fucile tem uma recepção péssima e como resultado disso tem uma entrada violenta, em carrinho. Um amarelo, certamente. O Sr. Howard Webb decide-se pela amostragem de um vermelho. Que se pode dizer? A mim parece-me que a cor acertada seria um laranja. Mas essa tonalidade em futebol não existe, a não ser nas camisolas da Holanda. É vermelho e há que lidar com isso. As esperanças desvanecem-se de vez. Com menos um, a faltar tão pouco tempo para o apito final, será certamente o Schalke a ser colocado entre as 8 melhores equipas europeias.

 

Mas este Porto não desiste! Estou orgulhoso! Com menos um e continuamos a carregar no acelerador, a dominar os germânicos. O público entusiasma-se mais pela reacção à adversidade por parte dos atletas do que pela crença numa reviravolta. O incentivo à equipa é uma espécie de prémio aos atletas pela sua bravura, pelo seu querer.

 

Bola na área dos alemães, tenho que me levantar para ver porque de repente todos se levantam. Consigo vislumbrar o Lisandro a receber a bola de costas, a rodar e a rematar de forma fulminante… e a bola a entrar, como que com fogo, na baliza de Neuer. O que a seguir se seguiu foi das maiores festas que vivi no Estádio do Dragão, talvez só comparável à tal eliminatória com o Manchester ou àquele cabeceamento de McCarthy que derrotou o Chelsea de José Mourinho. É indescritível! Abraços, saltos, gritos, choros, toda uma libertação de energia (alguns companheiros de lugar anual até aproveitam para darem uns empurrões na “vizinha do lado”, que esteve a noite toda a dizer mal da equipa!), uma explosão de 50 mil vozes – talvez menos porque alguns adeptos com menos fé tinham já abandonado o recinto – em uníssono, gritando golo! Nem acredito! Foi GOLO do Porto!

 

“Lisandroooo!!!” grita o speaker de serviço, ao que a multidão responde com todas as ganas: “López!!!!”. Isto repetido por mais duas vezes. E assim se cria um mito no Dragão. Mais um. Lisandro López entrou definitivamente na galeria dos imortais do meu clube. Só me lembro de um entusiasmo semelhante aquando do regresso do Ninja Derlei aos relvados, após prolongada ausência devido a lesão. Foi numa recepção ao Alverca (equipa contra a qual curiosamente se tinha lesionado no fim da 1ª volta) que Derlei voltaria a pisar um relvado muitos meses após a grave lesão no joelho para substituir já não me recordo quem. Ainda hoje não esqueço o Dragão todo de pé, a gritar “Ninja, Ninja, Ninja”, antes do brasileiro entrar no rectângulo verde, de forma triunfal. Nos poucos minutos que esteve em campo, Derlei mandou uma bola ao poste. Ainda hoje penso que, se essa bola tivesse entrado, o Dragão tinha vindo abaixo. Mas como todos sabemos, Derlei não se incomodou e, no jogo seguinte, na Corunha, na meia-final da Liga dos Campeões, faria o melhor jogo da sua vida, na minha opinião, marcando o penalty que colocou o FC Porto na segunda final da Liga dos Campeões da sua história.

Depois do golo de Lisandro vejo algo muito semelhante. Num sprint realizado com bola junto à linha (junto da bancada onde me encontro), todos nos levantamos automaticamente para aplaudirmos o astro argentino. É o novo ídolo do Dragão este jogador com mais alma que muitas equipas. Todos gritam o seu nome. Pode até vir a jogar, daqui a uns anos, nos rivais de Lisboa, mas no coração dos portistas Lisandro já tem um lugar assegurado. Para sempre.

 

Vem o prolongamento. O Porto continua a procurar o knock-out ao Schalke. Pelo contrário, os alemães querem vencer aos pontos. Mas o gancho decisivo dos portistas tarda em aparecer. Farías imita Tarik, ou seja, desperdiça oportunidades.

 

Mas dá prazer ver um embate destes. O Schalke é uma equipa muito forte também. São fortes e tacticamente não erram. Rafinha, Bordon, Westermann, Ernst, Jones e Kuranyi são jogadores de classe internacional. E que gosto dá ver o duelo entre Bordon e Lisandro! E que gosto dá ver a classe de Paulo Assunção, a subtileza de Lucho, a raça e técnica de Lisandro, a garra e vontade de Meireles, as pazes entre Mariano e a massa adepta (e que jogo está a fazer este argentino!), a segurança e eficácia de Alves e Emanuel. Quaresma, com o passar dos minutos, vem pegando mais no jogo. É agora que precisamos do Harry Potter, mais do que nunca!

 

O estádio motiva-se e motiva os jogadores. Os adeptos sentem que também fazem parte deste jogo, que podem ser o 12º jogador, que podem participar nesta batalha. Sim, porque lá dentro já não se trata somente de um jogo de futebol. Trata-se de uma batalha pela sobrevivência, mesmo que os músculos já estejam a latejar. Os jogadores dão tudo o que têm. Os jogadores correm com alma, à falta de forças. Ali já não há homens pagos para jogar. Há homens a lutar pelo orgulho, pela vitória, pelo seu grupo, pelo seu clube, pelo seu país. O mundo lá fora não existe. Ou se existe está concentrado ali, no Dragão. Tudo o resto está hibernado. Só este jogo interessa e nada mais.

 

Infelizmente Quaresma não consegue concretizar em golo aquela jogada. Roubou bem a bola mas depois faltou-lhe classe e calma para facturar, para a fazer passar através do gigante Neuer. A responsabilidade pesou muito. Se tivesse feito golo, Quaresma estaria agora com uma transferência assegurada para um grande colosso europeu. Assim sendo, fica a sua imagem de desilusão e incapacidade para virar o rumo dos acontecimentos. A ver vamos qual vai ser o futuro deste número 7.

E infelizmente o chapéu de Marek Cech levava um pouquinho de força a mais. E assim vamos para os penalties.

 

Antes dos penalties vive-se um momento fantástico. Alguém decide pôr a tocar o hino do Futebol Clube do Porto. Magnífico! Momento sublime! Cachecóis esticados e os portistas a cantarem a uma só voz. Olho para os lados, para as caras das pessoas, para me certificar de que todos compreendem que estamos a viver um momento único, que se está a escrever uma página memorável na história deste grande clube. Se existe definição para o que é “ser portista”, essa definição vem acompanhada destas imagens. O que ali se passou não se explica. Sente-se.

            Miguel Sousa Tavares disse uma vez, numa crónica, que existe o instante mágico, o instante iniciático, que sela para sempre o amor irracional entre um homem e um clube de futebol, um amor para a vida, que ninguém, jamais, poderá alterar. Enfim, uma paixão inexplicável, referindo-se ao primeiro jogo que o seu filho assistiu no Estádio das Antas.

Só quem já passou por este instante iniciático, por este ritual de iniciação, é que é capaz de compreender o que significou aquele momento. Eu tive a sorte de o poder compreender bem, pois tive um avô que, há cerca de 20 anos, me desvendou todos os mistérios do futebol. Assim, a partir daquele entoar de hino a plenos pulmões, o Porto podia perder que, mesmo assim, eu sairia feliz do estádio.

 

Bruno Alves e Lisandro permitiram que Neuer defendesse 2 penalties e colocasse o Schalke 04 nos oitavos da Champions. Foi injusto. Mas mesmo assim eu saí feliz do Dragão. E com a certeza de que mais nenhum clube no Mundo tem esta alma. Ser Dragão é isto. O futebol é isto. E é por isso que é uma paixão. Afinal de contas… como diz aquela música dos Skank, Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?

 

Rodrigo de Almada Martins

 

 

Porto Sentido V – “A dúvida que nos assalta”

Quarta, Maro 5th, 2008

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      Foi um FC Porto muito versão Intercalar aquele que subiu ao relvado do Bessa no passado Sábado. Jesualdo Ferreira optou por fazer descansar a grande maioria da equipa titular e lançou às feras, de uma assentada, João Paulo, Stepanov, Kaz, Mariano e Adriano. Todos eles cumpriram com o que lhes era pedido, especialmente o argentino Mariano González, que começa finalmente a justificar a persistente aposta do Mestre Jesualdo, conforme Pinto da Costa tratou recentemente numa entrevista televisiva, argumentando que “professores há muitos”.

      Na segunda parte, os mais rodados Quaresma, Tarik e Meireles trataram de encostar o Boavista à sua baliza e só por manifesto azar o endiabrado número 7 não aplicou o golpe de misericórdia que o Porto fez por merecer. 

      Na semana dos derbies das duas maiores cidades portuguesas, acabou por ficar tudo na mesma. Contudo, diga-se, em abono da verdade, estes derbies já não são tãoderbies assim. Em Lisboa, o outrora mais escaldante clássico do futebol português tem-se resumido nos últimos anos quase sempre a uma batalha pelo acesso à Champions e já não pelo ceptro de campeão nacional. Quer Benfica, quer Sporting, apresentam nos dias de hoje plantéis com poucos jogadores portugueses, com pouca casa, com diminuta ou mesmo nenhuma cultura do futebol português, e modos que, para homens como Cardozo, Dí Maria, Rodriguez, Izmailov, Vukcevic, Maxi Pereira, Grimi, Tiuí ou Farnerud, defrontar o rival da segunda circular é o mesmo que jogar contra o Beira-Mar, Setúbal ou União de Leiria, só que com mais adeptos a assistir. Da mesma forma que nós não conseguimos vislumbrar qualquer emoção extra num Peñarol – Nacional de Motevideu ou num Partizan de Belgrado – Estrela Vermelha, também estes jogadores não sabem o que significa um Sporting – Benfica. E dificilmente o conseguirão perceber, dada a escassez de símbolos futebolísticos em cada um dos conjuntos. Temos que entender que os nossos confrontos não têm a dimensão mundial de clássicos como um Barça – Real, um Manchester – Liverpool ou um Milan – Juventus. Daí que seja difícil fazer sentir a estes jogadores o picante de um derby lisboeta com tantos e tantos anos de história. 

      Na Invicta, vive-se o mesmo problema, principalmente nos axadrezados. Olhar para este Boavista e compará-lo com o Boavista de Manuel José onde pontificavam históricos como Bobó, Tavares, Nelo, Rui Bento, Nogueira, o “eterno” capitão Paulo Sousa, Caetano, Venâncio, Casaca, os magníficos guardiões Alfredo e Lemajic e ainda jogadores da categoria de Erwin Sanchez, Artur, Ricky e Marlon Brandão é o mesmo que comparar o Ronaldinho de há 3 épocas com o Ronaldinho de 2008: o nome e a camisola ainda são os mesmos, a magia, a classe e a competência é que mudaram.

      E por exemplo, será que algum dia nos esqueceremos de ver os então fantásticos pontas-de-lança Nuno Gomes e Jimmy Hasselbaink a marcar golos vestidos de xadrez? Ou do Boavistão de Jaime Pacheco com nomes como Litos, Pedro Emanuel, Petit e Ion Timofte?

      Não podemos deixar de sentir uma enorme nostalgia ao constatarmos que o Boavista dos inícios da década de 90 era um emblema que se intrometia no domínio dos 3 grandes, sendo que hoje em dia trabalha para não descer e se revela incapaz de segurar jogadores como Linz, João Pinto ou Zé Manel, sendo obrigado a vê-los partir facilmente para um dos seus rivais. Ironicamente, quase apetece dizer que a pior coisa que aconteceu ao Boavista foi mesmo… sagrar-se campeão! 

      Mas a realidade do Boavista é a realidade do futebol português. E, por muito que custe, temos que nos acostumar a ela. Actualmente as equipas portuguesas apenas conseguem contratar no mercado sul-americano e em certos mercados do Leste europeu. E mesmo aí já enfrentam a concorrência de equipas gregas, turcas, ucranianas e russas, a maioria controladas por investidores milionários. Isto para não falar dos KakásMessisGiovannis dos Santos e Patos deste mundo que viajam directamente do futebol júnior da América do Sul para os grandes colossos europeus. Claro que, de quando em vez, podemos pescar um ou outro Anderson. Mas logo passados dois anos será inevitável que apareça um “grande” europeu a pagar um cheque chorudo por esse jogador, encolhendo simplesmente os ombros por não o ter ido buscar directamente à favela.

      Além disso, quando equipas cipriotas vêm recrutar os melhores jogadores dos clubes médios portugueses para as suas formações, é inevitável que nos apercebamos que algo mudou. Dificilmente poderemos ver actualmente em Portugal jogadores titulares da selecção romena como o era Ion Timofte, esse grande artista, muito semelhante ao brasileiro Rivaldo na sua forma de jogar – note-se que o Benfica acabou de contratar o lateral-esquerdo da selecção da Roménia… sub-21! E quem fala em Timofte fala nos internacionais búlgaros Kostadinov e Balacov, no polaco Juskowiak, nos brasileiros Mozer, Valdo, Ricardo Gomes e Branco, nos suecos Schwarz e Thern, nos russos Iuran, Kulkov e Mostovoi, no holandês Valckx, nos nigerianos Amunike e Yekini.

      Claro que para todos os problemas há soluções. E basta olhar para o campeonato francês para perceber isso. Uma forte aposta no mercado africano e na formação a sério têm feito maravilhas pela selecção gaulesa. As equipas portuguesas terão de mudar mentalidades e perceber que nem o habitual mercado brasileiro pode ser viável num breve futuro. 

      Sendo assim, no Bessa, em versão Intercalar, o Porto demonstrou toda a sua superioridade. Deu-se ao luxo de descansar quase todos os titulares e não perdeu pontos para os seus mais directos rivais. A caminhada do FC Porto para o tri afigura-se cada vez mais como um belo passeio à beira-mar. O tour europeu, iniciado há pouco em Gelsenkirchen, pelo contrário, parece um trekking bastante complicado, com muitas escarpas e precipícios na jornada. O que me leva à seguinte dúvida: será este Porto equipa a mais para Portugal e equipa a menos para a Europa? A ver vamos. A recepção ao Schalke é já hoje e o Covil do Dragão mal pode esperar. Este é o nosso dia D. Vamos para cima dos alemães!  

Rodrigo de Almada Martins

 

Porto Sentido IV – “Falem antes de Porto-dependência!”

Quinta, Fevereiro 28th, 2008

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      Desde há alguns anos que certa comunicação social tenta desesperadamente colocar dependências no FC Porto, como se o clube ganhasse os campeonatos não por ter uma equipa sólida, mas sim por ter um ou dois jogadores que fazem a máquina carburar. Confesso que nunca gostei muito destas dependências. Porque elas raramente ou nunca existem, de facto. 

      Julgo que esta mania começou com o chamado “fantasma” Baía, que pairou durante alguns anos nas Antas, sem que Wozniak, Rui Correia, Hilário, Silvino, Eriksson ou Kralij conseguissem fazer esquecer o mítico guarda-redes português, então ausente em Barcelona. Ora, penso que o problema começou exactamente aqui: a saída de Vítor Baía criou mesmo um “fantasma”, as luvas dos guarda-redes seguintes pareciam queimar. E esse “fantasma” só foi exorcizado com o regresso do próprio… Vítor Baía, em carne e osso. 

      Depois disso muito se falou da falta que o estratega Zlatko Zahovic ia fazer. O esloveno foi para a Grécia e começou a brilhar um rapazinho que dava pelo nome de Deco. 

      Enquanto Deco se ia fazendo um senhor jogador, trataram de arranjar uma nova dependência para o Porto: Mário Jardel, o Super-Mário, o artilheiro-mor do campeonato nacional em 5 épocas de dragão ao peito. Jardel saiu para Istambul e parecia que um novo “fantasma” ia aparecer. Mas logo surge um brasileiro chamado Pena que, com uma primeira época fantástica, se torna também ele no goleador máximo do nosso campeonato. É verdade que as épocas seguintes não lhe correram tão bem, mas serviu para mostrar que havia vida para lá de Jardel. Depois, Derlei, Postiga da fase Mourinho, McCarthy e agora Lisandro vieram demonstrar que o Porto é terra fértil para os avançados se tornarem goleadores. 

      Enterrados os cabeceamentos fulminantes de Jardel, uma nova dependência surgiu aos olhos de muitos. Desta vez centrada no tal rapazinho que começou a espalhar classe depois de Zahovic. Quem não se lembra de ter ouvido falar em Deco-dependência? Deco saiu e depois da atribulada época de Del Neri, Fernández e Couceiro surgiu um meio-campo bastante coeso e eficaz composto por Paulo Assunção, Raúl Meireles e Lucho González. Meio-campo esse que não fica muito atrás do célebre trio de Gelsenkirchen: Costinha, Maniche e Deco. 

      A par da suposta Deco-dependência, começa a desenhar-se, a partir da Final de Sevilha, outro “fantasma”: José Mourinho. Muitos apregoavam que o previsível adeus de Mourinho significaria o início da derrocada de Pinto da Costa e do Futebol Clube do Porto. Claro que com a saída do special one e com a autêntica sangria que o plantel sofreu, era óbvio que o reino portista sofresse um abalo, daqueles que aparecem na escala de Richter. O Dragão tremeu bastante, é certo. Mas mesmo assim chegou para erguer a segunda Taça Intercontinental da história do clube e para disputar o campeonato até à última jornada. Tudo isto numa época em que entraram e saíram dezenas de jogadores (diga-se que muitos dos que entraram não tinham categoria para envergar a camisola azul-e-branca e a maioria dos que saíram eram jogadores de classe mundial), conforme os ideais futebolísticos de cada um dos três treinadores que se sentaram no banco do Dragão. Na época seguinte seria um holandês (de que já me ocupei aqui numa crónica anterior) a devolver a estabilidade e o bom futebol aos adeptos portistas. 

      Depois veio o Apito Dourado e as biografias de vão de escada. Novamente se vaticinou a queda do Presidente Pinto da Costa e, consequentemente, do FC Porto. Mas a realidade é que o Porto caminha a passos largos para segundo tri da sua história. 

      A última novela gira em torno de Ricardo Quaresma, o Harry Potter do Dragão. Depois do jogo com o Nacional e do golo de Lipatin, tinha ficado provado, diziam muitos, que o Porto era Quaresma-dependente. Após o jogo frente ao Paços de Ferreira, pelos vistos, tudo mudou. Afinal o Porto até joga melhor sem ele, pois o rapaz prende demasiado a bola. Sem ele o futebol portista mais fluído. O Tarik e o Lisandro estão em grande forma e o Farías (e até o Mariano, pasme-se) não são assim tão maus como se pensava no início da temporada. Esta última vitória do Porto sem as quaresmices do costume gerou uma fogueira para jornais, rádios e televisões. Jesualdo é questionado todos os dias sobre isso e os seus colegas são inquiridos constantemente sobre a importância do internacional português. A última acha foi o n.º 7 não ter sido convocado para o jogo da Taça de Portugal frente ao Gil Vicente, que também terminou com uma vitória dos dragões. 

      Mas que ninguém se preocupe sobre a falta de fantasmas! Parece que já arranjaram outro, aliás, outros! Agora a discussão gira em torno do tango argentino. 

      Claro que tudo isto não passa de um rebuçado para nos distrair do essencial: o Porto é uma equipa a anos-luz das outras em Portugal e permite-se ganhar confortavelmente e jogando bem mesmo sem o seu maior artista. E se a equipa consegue ganhar sem Quaresma isso não significa que seja preferível jogar sem ele. E quando os argentinos saírem outros aparecerão. É que, se analisarmos bem o trajecto dos supostos fantasmas depois de terem abandonado a cidade Invicta, vemos claramente que o local onde foram mais felizes foi nas Antas/Dragão.  

      Baía foi infeliz na Catalunha; Zahovic ainda fez uma boa época no Olympiacos e depois acabou a fazer jogos miseráveis no Valência e no Benfica; Jardel teve algum sucesso na Turquia e alcançou no Sporting a sua melhor marca pessoal, mas acabou por se perder em Lisboa, andando hoje completamente perdido para o futebol de alto nível; Costinha, Derlei e Maniche, depois de deixarem o Dragão, nunca mais se reencontraram com as grandes exibições; o próprio José Mourinho, apesar do imenso sucesso interno do seu Chelsea, foi incapaz de dar a Abramovich o que tinha dado a Pinto da Costa e aos portistas: uma Liga dos Campeões. A excepção é Deco, que conseguiu ter um grande sucesso em Barcelona. É por isso que eu prefiro falar em Porto-dependência por parte destes personagens. O FC Porto acabou por ser o ponto alto das suas vidas futebolísticas. O que resulta óbvio é que a maioria dos atletas rende mais no Porto do que em qualquer outro lado. 

      O curioso é que pouco se tem falado do verdadeiro “fantasma” que hoje existe no futebol português. Não assombra no Dragão, mas sim na Luz. Falo obviamente de Simão Sabrosa, grandíssimo jogador, capaz de garantir 15 golos por época, dar outros tantos a marcar, exímio batedor de cantos, livres e grandes penalidades. Um jogador que carregou o Benfica às costas nas últimas épocas. E pelo andar da carruagem, o Benfica arrisca-se a ficar com outra assombração, quando Rui Costa pendurar definitivamente as chuteiras no final da época. 

      Contudo, o futebol é propício ao aparecimento repentino de novos ídolos, capazes de nos fazerem esquecer rapidamente as anteriores estrelas. Um bom exemplo disso é a mítica camisola 7 do Manchester United, sucessivamente envergada por George Best, Bryan Robson, Eric Cantona, David Beckham e, agora, Cristiano Ronaldo. E não duvidemos que depois do português aparecerá outro, tão bom ou melhor do que ele. É essa a beleza do futebol. Quando julgamos que vamos ficar órfãos de uma estrela, logo aparece um novo menino a fintar tudo e todos, a brincar com a bola, a deixar adversários colados ao relvado e a seguir em direcção à baliza. E depois esse menino envelhece, deixa de conseguir fazer o que fazia e logo é suplantado por outro. É por isso que o futebol nunca há-de morrer.    

A SEMANA  

1 – As semanas vão passando e de Leandro Lima não surge qualquer notícia. Será que o problema é apenas a tal questão da idade? Aguardemos pelas notícias, que tardem em chegar; 

2 – A renovação de Paulo Assunção parece estar encravada. Espero que se chegue rapidamente a uma solução que agrade a todas as partes. Relembro que foi a não renovação e consequente saída de Makelélé que destruiu o equilíbrio dos Zidanes & Pavónes do Real Madrid de Florentino Pérez. 

3 – Mais um grande jogador que abandonou os relvados portugueses sem a glória merecida. Falo obviamente de João Vieira Pinto, o Grande Artista, o Menino de Ouro. Entre outras inúmeras qualidades que possuía, penso que foi o jogador com melhor jogo de cabeça que conheci, logo depois de Mário Jardel. Jogava naquela posição indefinida de falso ponta-de-lança, que hoje em dia está em crise. Nem era médio nem avançado. Nem um 10. Mas tinha um pouco de tudo isso. Na memória de todos ficarão para sempre aqueles 3 golos em Alvalade e o genial golpe de cabeça frente à Inglaterra no Euro 2000.

      Tenho pena que João Vieira Pinto não tenha tido o adeus que merecia. Há uns anos, num carro de um amigo meu benfiquista, estávamos a ouvir um CD do Zé Manel Taxista (Maria Rueff) dedicado ao Benfica. Até que esse personagem começa a dizer em voz alta e rapidamente os grandes nomes do Benfica: Eusébio, Simões, Germano, José Águas, Coluna, Chalana, Humberto Coelho, Veloso, Magnusson, Rui Águas, Mozer, Ricardo Gomes, Rui Costa, Preud’Homme, Poborsky, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, entre muitos outros. Quando a lista chega ao fim, esse meu amigo olha para mim meio envergonhado e diz com voz sentida “Reparaste? Esqueceram-se do João Pinto…”. Assim se reescreve a história. Se o Menino de Ouro tivesse jogado no seu clube de pequenino talvez o seu percurso tivesse sido diferente.  

Rodrigo de Almada Martins

 

Porto Sentido III - O legado de Co Adriaanse

Quarta, Fevereiro 13th, 2008

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Co Adriaanse saiu do FC Porto em circunstâncias estranhas. Confesso que nunca percebi a sua saída. Custa-me compreender que alguém (que até já começava a dominar a língua portuguesa) se tenha demitido de treinador de uma equipa campeã com um risonho futuro à sua frente apenas porque não lhe dão o ponta-de-lança que tanto desejava para fazer dos dragões a máquina de golos com que prometia assustar a Europa.

Claro que outras questões internas, como a deterioração das relações pessoais entre o holandês e alguns dos seus pupilos foram determinantes para o fim do reinado deste homem ao leme dos destinos dos nortenhos. Mas nessa atribulada pré-época foi notoriamentevisível, através de declarações para os jornais, o crescendo de irritação deAdriaanse pela não concretização da transferência de Hesselink, que viria a ser transferido para os escoceses do Celtic. De facto, Pinto da Costa e CoAdriaanse nem sempre estiveram em sintonia no capítulo das contratações. Já na novela Kromkamp (logo no ano de chegada do holandês), a SAD portista mostrou que não estava disposta a cometer a loucura de contratar um lateral direito porcerca de 8 milhões de euros, o mesmo se passando na pré-época seguinte com ogoleador do PSV, que custaria à volta de 10 milhões de euros. E convenhamos que, pelo menos neste aspecto, a SAD azul e branca esteve bem, visto que oexemplo de Cardozo é suficiente para provar que nenhum clube lusitano tem condições para arcar com o risco de contratar um jogador por essa verba.

 

As histórias de Kromkamp e Hesselink são demonstradoras da teimosia e até arrogância do holandês. De facto, Adriaanse nunca percebeu que o problema do seu Porto na Champions League não era a ausência de um “matador” que fizesse a diferença no jogo aéreo, mas sim o meio-campo, exactamente o mesmo que acontece com Jesualdo Ferreira. Com a agravante, claro,do primeiro jogar com apenas três defesas, enquanto que o segundo joga com os tradicionais quatro. A avaria do sistema estava no ousado e ao mesmo tempo apaixonante 3×4x3 (tão ao gosto do país das tulipas) e não na frente de ataque,onde até dispunha do exuberante Benni McCarthy. Aliás, segundo se veio a sabermais tarde, o sul-africano só quis abandonar o Dragão (no início da temporada 06/07) devido à má relação que mantinha com Co Adriaanse. Tivesse ele esperado mais uma semana e teria tido uma boa notícia.

 

Adriaanse tinha bastantesdefeitos, concordo. É inegável. Contudo, penso que chegou a hora dos portistas lhe darem o devido mérito. As grandes instituições – e o FC Porto é sem dúvida uma delas – devem saber olhar para o passado de frente, não caindo na tentativa de reescrevê-lo. E a Co Adriaanse deve ser-lhe reconhecida a importância vital que teve no ressurgir de um Porto dominador na pátria lusa e atrevido além fronteiras.

É importante recordar que este holandês chegou à Invicta numa altura bastante complicada. A época anterior tinha sido tudo menos pacífica, apesar da conquista da Taça Intercontinental. O clube vivia ainda na ressaca pós-Mourinho, tinha perdido o campeonato na derradeira jornada para o Benfica de Trapattoni e as entradas e saídas eram muitas. A contestação dos sócios era grande, em virtude da “escola de samba”adquirida na janela de transferências de Inverno com as contratações algo precipitadas de Pitbull, Léo Lima, Bomfim e Leandro.

 

Co Adriaanse chegou e foi capaz de fazer aquilo que Del Neri, Fernandez e Couceiro não conseguiram: arrumar a casa e devolver a disciplina ao balneário. Jogadores desmotivados e sem chama saíram (casos de Costinha, Maniche, Luís Fabiano e Derlei), bem como a tal “escola de samba”, que foi empurrada para fora do clube. A partir daí, começou a construir equipa ganhadora em torno de Lucho González.

 

A Adriaanse muita coisa lhe pode ser apontada. Mas duvido que houvesse alguém capaz de, naquela altura, fazer melhor. É certo que Diego, que agora confirma todo o seu potencial na Alemanha, não conseguiu ser aproveitado por este treinador. Mas também duvido que o brasileiro conseguisse entrar no actual esquema do Professor. A contratação de Sonkaya foi claramente um tiro longe do alvo, mas erros de casting acontecem todas as temporadas (Mariano, por exemplo). Também lhe podem atirar o facto de McCarthy não ter rendido, mas a verdade é que também com os três treinadores da época anterior o sul-africano pareceu sempre um jogador desconcentrado e desanimado. E Ibson, Jorginho e Postiga (chegou a ser testado a 10, lembram-se?) demonstraram com Jesualdo que se calhar o defeito era deles mesmos e não de… Co Adriaanse!

 

Ou seja, na maioria das questões em que Adriaanse não esteve tão bem, os outros não estiveram melhor. Por isso, analisemos as coisas boas, para além da dobradinha, obviamente. Desde logo, temos de pegar nos exemplos de Bosingwa, Pepe e Quaresma. Bosingwa, a jogar numa defesa de três centrais aperfeiçoou o seu jogo aéreo, a sua marcação e ainda as suas subidas pelocorredor direito, tornando-se num lateral direito hoje em dia cobiçado pelo Manchester United; Pepe, que era assobiado desde a sua contratação, tornou-se no Senhor 30 milhões, sucedendo a Ricardo Carvalho; e há-de chegar o dia de Quaresma agradecer publicamente ao holandês por se ter tornado definitivamente num jogador de classe mundial (aliás, alguns problemas de Ricardo Quaresma no tempo de Adriaanse mantêm-se na era Jesualdo, com os mesmos assobios  à mistura).

 

Para além destes três casos flagrantes, podemos referir outros, sem dúvida com a chancela Co Adriaanse: a definição de Helton como titular da baliza dos dragões, num processo que foi mais suave do que o previsto; a descoberta do potencial de Bruno Alves, que é hoje um central de elevada categoria; Paulo Assunção foi o eleito para ocupar o lugar deixado vago por Costinha e tem feito épocas fantásticas, mostrando ser um atleta de eleição; Raul Meireles confirmou todo o valor que tinha mostrado no Bessa mas que, na sua época de estreia, andou escondido; Lucho foi o El Comandante sobre o qual se ergueu o 3×4x3; Adriano mostrou dotes de goleador, dando vários troféus ao FC Porto; a entrada do prodígio Anderson em jogos a doer foi gerida com muita inteligência e sem pressas; Lisandro, apesar de jogar deslocado na direita e de render muito menos do que hoje, já ia espalhando o terror com as suas diagonais e nunca sofreu muito com a mudança para o futebol europeu, ao contrário de Bergessio ou Cardozo, por exemplo; e Tarik, que foi recrutado ao seu antigo AZ Alkmaar, apesar de não ter rendido no imediato, já mostrou que é um jogador especial, capaz de decidir um jogo.

 

É consensual dizer-se nos dias que correm que o Porto ganha porque tem o meio-campo mais forte, quer a defender, quer a atacar. Ora esse meio-campo composto por Assunção, Meireles e Lucho ganhou rotinas precisamente com Co Adriaanse. E desta defesa apenas Fucile ainda não estava no Dragão. No ataque também nada mudou, à excepção de Farias.

 

Por isso, penso que chegou a hora de dizermos um Muito Obrigado a Mr. Adriaanse. Dê-se o mérito a quem o merece. Este novo ciclo vencedor do FC Porto tem a sua marca. A César o que é de César. A Adriaanse o que é de Adriaanse.

 

Rodrigo de Almada Martins

 

 

Jesualdo Ferreira – 4×3x3 ou 4×4x2 ? Eis a questão!

Segunda, Fevereiro 4th, 2008

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Quando o Prof. Jesualdo Ferreira iniciou funções no FC Porto, não demorou muito tempo a abolir o ousado 3×4x3 de Adriaanse e a implementar o seu sistema táctico preferido que tão bons resultados lhe deu em Braga: o 4×3x3.

E se por um lado é no 4×3x3 que se sente mais cómodo e que provavelmente lhe vai trazer o segundo campeonato nacional consecutivo e o tri para o FC Porto, por outro é notório o receio que sente em utilizar esse mesmo sistema nos grandes jogos.

Um treinador deve confiar cegamente no seu sistema táctico. Quando isso acontece, a disposição das peças no terreno nunca muda, quer o adversário seja o AC Milan, quer seja o Carcavelinhos. Jesualdo, pelo contrário, já enveredou diversas vezes pelo 4×4x2, quase sempre com resultados pouco animadores. Exemplos disso são os confrontos de Stamford Bridge, Anfield Road e Alvalade, em que o medo do meio-campo das equipas adversárias falou mais alto que as suas próprias convicções.

Ora, se Jesualdo é casado há bastantes anos com o 4×3x3, está mais que visto que não consegue esconder a paixão que nutre pelo 4×4x2. O problema é que, até ver, essa paixão não é correspondida, o que o faz manter o casamento com o sistema táctico actual. Sistema esse que, bem ou mal, tem chegado e sobrado para consumo interno. Mas o técnico dos azuis e brancos tem a plena consciência de que para se triunfar na Europa do futebol é necessário saber manobrar as variantes do 4×4x2, mesmo que esse seja o sistema mais complicado de calibrar por implicar necessariamente uma distribuição menos uniforme dos jogadores no relvado.

Mesmo sendo um sistema que exige muito treino e disciplina (que o diga Paulo Bento!…), é hoje em dia consensual que o 4×4x2 é a melhor arma para se ter sucesso na Champions League. Desde logo porque os jogos se ganham cada vez mais na linha intermediária. Assim, quem colocar mais elementos nessa zona do terreno – se os souber organizar, claro – tem mais probabilidades de ganhar a dura batalha do meio-campo e, consequentemente, de ganhar o jogo.

Jesualdo Ferreira vive, deste modo, num dilema táctico. O tour europeu está aí à porta e inicia-se na Gelsenkirchen de boa memória. Se o 4×3x3 é perfeito para as provas internas, perde nitidamente fulgor nos jogos europeus. Só que o 4×4x2 a que o treinador recorre nestes jogos não tem rotinas e é facilmente anulado. Qual será, então, a solução? Começar a ensaiar o 4×4x2 nos jogos teoricamente mais fáceis da BWIN Liga ou assumir definitivamente o 4×3x3, levando-o até às últimas consequências? Um enigma nada fácil de ser resolvido, visto que nos últimos anos apenas o Barcelona de Rijkaard conseguiu vencer a Liga dos Campeões jogando em 4×3x3, utilizando Ronaldinho, E’too e Giuly na final frente ao Arsenal.

Na minha opinião, muito dificilmente Jesualdo Ferreira conseguirá impor o 4×4x2 no FC Porto. Muito por culpa de um homem: Ricardo Quaresma. Há quem diga que os grandes jogadores jogam em qualquer lado e se encaixam em qualquer sistema. Não concordo. Quaresma e Jardel, por exemplo, demonstram a razão da minha tese. Ambos exigem que se jogue em 4×3x3. O primeiro porque necessita de jogar colado às linhas (embora seja um jogador livre por natureza) para arrancar os seus fantásticos cruzamentos da esquerda (de trivela, preferencialmente) e da direita, implicando ter um homem na área pronto a finalizar; o segundo porque necessita de jogar sozinho na área e de ter dois homens colados às laterais a alimentar a sua fome de golos com cruzamentos milimétricos. Nas antigas Antas esses homens eram Capucho e Drulovic. E talvez tenha sido precisamente o 4×3x3 com que o Porto alinhava na era Mário Jardel que impediu Oliveira e Fernando Santos de triunfar na Europa, já que o terceto da frente era praticamente inofensivo no momento de defender.

Contudo, até por razões históricas se aconselha Jesualdo a optar pelo 4×4x2. Isto, claro, se quiser algo mais do que o sucesso a nível nacional. É que, curiosamente, o FC Porto alinhou sempre em 4×4x2 nas suas grandes conquistas europeias. Em Viena, face à lesão do bi-bota Fernando Gomes, Artur Jorge surpreendeu os alemães ao não colocar um ponta-de-lança fixo e a introduzir Madjer e Futre, vagabundos na frente. Em Sevilha, seria a vez do castigo de Postiga o impedir de jogar a final. Mourinho decide colocar, então, Nuno Capucho (preterindo Jankauskas) para fazer parelha na linha avançada com Derlei. Em Gelsenkirchen, Mourinho volta a optar de novo por 2 homens soltos na frente: Derlei e Carlos Alberto. Sempre com o losango atrás deste homens, claro. The history repeats itself

Mas a este FC Porto falta, essencialmente, o tal quarto médio, indispensável num 4×4x2. E esse médio nunca poderá ser, por exemplo, Marek Cech. Bolatti chegou a ser pensado como uma solução, fazendo adiantar Assunção no terreno para jogar lado a lado com Meireles, libertando Lucho para missões mais ofensivas. Mas o trinco argentino está a demorar a adaptar-se ao futebol do Velho Continente. Leandro Lima seria também um jogador interessante para este sistema, mas padece do mesmo mal de Bolatti. Kazmierczak tem mostrado sentir muito o peso da camisola. Quaresma, Sektioui e Barbosa são homens de rasgos, de rupturas, dependentes da inspiração, necessitados das linhas laterais para explanarem o seu futebol. Por isso mesmo e também por não defenderem, nunca poderão participar na gestão do meio-campo, na ocupação dos espaços e nos processos de transição ofensiva e defensiva que faziam do Porto de Sevilha e do Porto de Gelsenkirchen equipas dominadoras da zona central do relvado. O trio base destas conquistas era composto por Costinha, Maniche e Deco. Frente ao Celtic juntou-se-lhes o russo Alenitchev, enquanto que diante do Mónaco foi a vez de Pedro Mendes ocupar um lugar no losango. Daí que a contratação de Belluschi ou o regresso de Ibson, médios de alguma maneira semelhantes a Alenitchev e a Mendes, se me tivessem afigurado como ideais. E quem sabe se um montenegrino canhoto (que em tempos esteve nas cogitações de Jesualdo) não encaixaria bem neste eventual sistema? Estes jogadores acabaram por não vir parar ao Dragão. Por isso, o enigma continua. O Professor tem a palavra!

 

 

A SEMANA

 

O fim-de-semana futebolístico veio mostrar que a jornada passada foi mais própria do dia 1 de Abril do que de finais de Janeiro. O Benfica confirmou não ser a equipa unida e com capacidade de sacrifício que esteve na cidade-Berço e o Sporting demonstrou não ser a equipa eficaz e pragmática que defrontou os bi-campeões nacionais. O FC Porto fez a União de Leiria pagar a factura (como em tempos alguém disse…) da derrota em Alvalade e logo com uma goleada. O regresso do 4×3x3 devolveu a fluidez e a liberdade de movimentos à equipa, num jogo marcado pelas sociedades que a equipa de Jesualdo vai criando jornada após jornada: à Lucho & Lisandro, SA junta-se agora a Quaresma e Farías, Lda.

Por isso, as declarações de Celsinho e de Edcarlos só transparecem o desconhecimento dos atletas em questão da realidade do nosso futebol. E são péssimas para eles e para os próprios associados dos seus clubes, que se agarram a estes ditos numa réstia de esperança, saindo depois facilmente desiludidos e com vontade de assobiar e abanar lenços brancos.

E isto numa semana de trabalho que até se revelou algo instável para as bandas do Olival, devido ao caso Leandro Lima. Já se suspeitava que nesta história havia gato. E pelos vistos houve mesmo. Terá o FC Porto comprado “gato” por lebre? Aí está mais uma história para seguir nos próximos capítulos.

                                                                         Rodrigo de Almada Martins

 

 

A 1ª CRÓNICA DE UM PORTO SENTIDO

Tera, Janeiro 29th, 2008

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Quis o destino que iniciasse esta minha crónica no FootballIdeas no rescaldo de um emocionante e atípico Sporting-Porto. Atípico porque injusto. E injusto porque caso o bom futebol, o domínio do jogo e as melhores oportunidades valessem 3 pontos, eles iriam direitinhos para o Futebol Clube do Porto. Mas como, até ver, são os golos que contam, os nortenhos saem de Alvalade de mãos a abanar.

Em teoria, o embate entre leões e dragões chegou na melhor altura para os comandados de Jesualdo Ferreira. Num mundo perfeito pintado a azul e branco, o FC Porto chegaria a Alvalade com 14 pontos de vantagem, com a totalidade dos passes de Lisandro López e Quaresma assegurados, com as renovações de Raúl Meireles e do mesmo Quaresma acertadas e sairia de Lisboa com 17 pontos a mais que a turma de Paulo Bento. Nesse mundo perfeito, o Harry Potter do Dragão faria uma exibição de gala (afinal de contas nas laterais estavam os inexperientes Pereirinha e Ronny…) frente ao clube que o formou para o futebol e dessa forma calaria para sempre os assobios dos adeptos que tanto teimam em incomodá-lo. E a sua exibição daria a Pinto da Costa mais um doutoramentohonoris causa na gestão de crises de uma equipa de futebol.

Mas o mundo perfeito, desta vez, pintou-se de verde e branco. O Porto bem se esforçou por manchar essa pintura, mas definitivamente a noite era leonina.

O clássico começou com uma – já habitual – surpresa do Prof. Jesualdo, que surpreendeu tudo e todos ao não incluir no onze inicial nem Ernesto Farías, nem Mariano, nem Adriano, nem Hélder Barbosa, mas sim Marek Cech. O eslovaco ficaria com o papel de 4º médio do meio-campo portista, com o objectivo de combater a grande densidade de jogadores do Sporting nessa zona – segundo o próprio Jesualdo – e, claro, ficaria com a responsabilidade de atacar pela ala esquerda.

E aqui residiu o erro de Jesualdo Ferreira neste jogo: povoar em demasia o flanco esquerdo e deixar desguarnecido o lado direito da sua equipa, confiado que o bom momento de forma de José Bosingwa seria suficiente para travar o melhor flanco do Sporting desta temporada – o esquerdo – onde costumam surgir o cada vez mais decisivo Simon Vukcevic, o argentino Romagnoli (este Pipi adora fugir do centro para a esquerda), Izmailov (que também gosta de deambular nesta zona do terreno e que confirmou ser o carrasco dos campeões nacionais), Liedson (quando vem pressionar ou procurar bola às alas) e o lateral bastante ofensivo Ronny. Mas o bom momento de Bosingwa sofreu forte revés na noite de domingo. Mas já lá vamos.

O jogo começou praticamente com um passe de ruptura de Bosingwa para Lucho González, que surge no corredor central a rematar bastante torto, naquele que seria o primeiro do festival de golos falhados pelo argentino. Logo depois aparece o golo bem anulado a Lisandro, em posição irregular (mesmo assim atenção para o notável golpe de cabeça). E ainda as claques portistas no Alvalade XXI não se tinham sentado após estes dois lances e já surgia a 2ª oportunidade falhada por Lucho, após excelente combinação com o seu compatriota Lisandro.

O que acontece depois vem nos compêndios futebolísticos mais antigos. Quem não marca, sofre. E assim foi. Os 12º e 15º minutos de jogo revelar-se-iam fatais para o conjunto azul e branco.

Importa analisar estes terríveis minutos, pois foram eles a decidir o jogo. A estratégia do FC Porto estava a resultar em pleno, já que nos primeiros 10m o Porto contabilizava duas oportunidades claras de golo e um golo anulado. Contudo, o futebol é fértil em surpresas e em mudanças de rumo em pequenos instantes. E contra isso não há táctica que valha a uma equipa. Se Lucho tivesse sido matador talvez agora estivesse aqui a idolatrar a táctica de Jesualdo Ferreira. Mas como o futebol faz-se de golos, há que apontar os erros.

O desenho táctico dos dragões era bastante estranho, diga-se em abono da verdade. A ideia de Jesualdo era correcta: colocar muitas peças do lado esquerdo do seu ataque para explorar a inexperiência de Pereirinha, lançado às feras devido à lesão de Abel. Mas o Prof. não contava certamente com a grande ajuda de Moutinho a fechar aquela zona do terreno e muito menos com a grande exibição do jovem lateral leonino.

Para além disso, Quaresma raras vezes foi visto no 1º tempo junto das linhas laterais, actuando mais na posição 10, onde perde claramente produtividade. E nem Lucho apareceu pela direita a apoiar José Bosingwa como vinha fazendo tão bem desde a chamada de Tarik Sektioui para a CAN. Já Meireles também pareceu algo perdido em campo com a entrada de Marek Cech, pois isso impediu-o de romper pela esquerda como costuma fazer para aproveitar os desequilíbrios gerados normalmente naquela zona por Ricardo Quaresma, que andou toda a 1ª parte completamente invisível nos terrenos feudais de Miguel Veloso. Mas o 2ª tempo tratou de confirmar que os problemas do Mágico não eram a tal posição 10 nem as botas brancas com que iniciou o jogo, pois mesmo colado às linhas e com as já habituais botas pretas continuou a mostrar-se completamente inconsequente e inofensivo, à excepção de um remate de longa distância que passou perto do poste da baliza de Rui Patrício. A sua substituição perto dos 90m acaba por ser justa, até porque numa equipa como a do FC Porto não pode haver intocáveis.

E com tanta gente na esquerda e no meio, Bosingwa esteve totalmente desapoiado até ao intervalo, quer a defender, quer a atacar. É certo que esteve desinspirado. É certo que Marat Izmailov foi o seu melhor marcador directo nesta temporada. É certo que, se passasse por Izmailov, ainda tinha que ultrapassar Ronny. Mas também é certo que se Lucho ou Quaresma tivessem andado mais por aquela zona ficaria mais fácil para o lateral romper pelo corredor direito como tanto gosta. Jesualdo confiou na sua excelente forma física e deixou o flanco todo ao seu dispôr, mas foi presa fácil para o jogo de sacrifício do russo do Sporting, que nunca o deixou dar profundidade ao seu jogo.

Assim sendo, os lances de ataque portista na 1ª metade (e foram bastantes!), quase sempre gizados no corredor central pelo dueto de tango argentino Lucho & Lisandro, que já jogam juntos de olhos vendados, infelizmente só funcionou até ao momento da finalização, capítulo em que El Comandante esteve muito abaixo do que se lhe reconhece.

Ou seja, o problema do esquema montado pelo FC Porto esteve nas laterais: na direita houve homens a menos (apenas um para falar verdade); na esquerda houve homens a mais e a jogarem mal rotinados. E isso reflectiu-se nos golos do Sporting: espaço a mais no primeiro; confusão e desenquadramento de Cech e Fucile no segundo. Até ao intervalo, o Porto foi uma equipa descompensada, quase coxa do seu lado direito. Claro que não podemos retirar mérito à teia armada por Paulo Bento, que colou Moutinho (à direita) e Izmailov (à esquerda) para travar as investidas dos campeões nacionais. Na frente, Liedson dava muito que fazer aos centrais com as suas movimentações rápidas em toda a largura do ataque, enquanto que Vukcevic gravitava em torno dos espaços deixados pelo Levezinho. Além disso, o montenegrino está naquela fase da vida de um avançado em que qualquer remate que faz é golo, mesmo que com muita sorte à mistura. Mas já não restam dúvidas que Simon Vukcevic (21 anos) é o melhor reforço dos 3 grandes nesta temporada (e já agora, aquela forma de festejar o golo junto dos adeptos é de aplaudir, pois é coisa rara nos tempos que correm).

Ao intervalo, Jesualdo Ferreira corrigiu o erro retirando Marek Cech, fazendo entrar para o seu lugar o motivado Farías, que ou muito me engano ou… não engana! Todos os portistas já depositam grandes esperanças neste avançado, que assim faz com que em vez do dueto passe a haver um terceto de tango para as bandas do Dragão, composto pelos artistas Lucho, Lisandro e Farías. Trouxe uma grande vivacidade ao ataque portista, movimentou-se muito bem, veio várias vezes procurar jogo ao meio-campo, mostrou saber jogar de costas para a baliza e ainda dispôs de duas excelentes oportunidades, desviando uma bola para a baliza que Polga tratou de salvar na linha e realizando um excelente cabeceamento à barra da baliza dos leões. Assim sendo, sobram duas conclusões: a primeira é a de que Farías deveria ter sido incluído no onze inicial de domingo ou que, pelo menos, deveria ter entrado mais cedo; a segunda tem a ver com a provável titularidade ganha pelo argentino para os próximos jogos.

E se Farías rubricou uma excelente exibição, o mesmo se pode dizer de toda a equipa. O intervalo fez bem aos campeões nacionais que, mais uma vez, voltaram a assumir as despesas do jogo. Partiram para cima do Sporting e, em certos momentos, a pressão foi mesmo asfixiante, já que o Sporting se limitava a chutar a bola para a frente sem qualquer nexo, apesar de nunca terem perdido a consistência defensiva. Se o resultado tivesse sido favorável aos dragões não hesitaria aqui em referir que no 2º tempo, em Alvalade, se assistiu a uma lição de futebol, que não teve o seguimento devido porque Farías, Lucho e Lisandro teimaram em não acertar com as redes. Mesmo com um guarda-redes em nítida inferioridade física (após violenta entrada de Liedson), o FC Porto carregou ininterruptamente sobre o Sporting, encostou-o às cordas com toda a raça e querer e só por manifesto azar foi incapaz de aplicar o KO por que tanto lutou. Lisandro, por exemplo, foi o espelho dessa acção: batalhou e lutou como sempre, jogou de costas para a baliza, rematou, distribuiu jogo, roubou bolas e só a infelicidade, Rui Patrício e uma bandeirola de fiscal de linha lhe retiraram o 14º golo na BWIN Liga que tanto fez por merecer.

Penso que todos os portistas estão de acordo que fica um sabor amargo na boca pelo conservadorismo de Jesualdo na hora de escalar o onze inicial, pois de entre todos os jogadores que podiam jogar no lugar habitualmente ocupado por Tarik (Mariano, Barbosa, Cech, Farías e Adriano), o Prof. escolheu o homem menos acutilante em termos ofensivos. Mesmo saindo derrotado de Alvalade, o FC Porto pode levantar a cabeça pois deu a imagem de quase ter uma espécie de superioridade moral face aos seus mais directos adversários, pois quem faz uma 2ª parte deste nível em casa de um rival histórico, após sofrer 2 golos um tanto ou quanto caricatos no 1º tempo, demonstra claramente porque é que vai com 8 pontos de avanço sobre o 2º classificado. O campeão caiu. Mas caiu de pé. Claro que há que saber dar mérito ao jogo de sacrifício do Sporting, mas não podemos escamotear a tremenda superioridade do Porto com os conceitos de “eficácia” e “pragmatismo” a que o staff técnico e o plantel leonino recorreram. Bastava 1/3 das oportunidades terem sido transformadas em golo e os dragões sairiam de Lisboa com mais 3 pontos na bagagem.

Ou isso ou, então, nada do que acima escrevi faz sentido, já que este resultado pode explicar-se porque este Sporting-Porto foi uma partida de futebol. E no futebol pode-se vencer com 41% de posse de bola, com um golo de frango e com outro em fora-de-jogo. 

28 de Janeiro de 2008  

Rodrigo de Almada Martins