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A melhor final da Champions e as lágrimas de Terry e Ronaldo.

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Pode parecer exagerado, mas quase uma semana depois continuo a pensar da mesma forma: o encontro entre Manchester United e Chelsea foi a melhor final da Taça / Liga dos Campeões que vi até hoje. E consigo recuar ate finais dos anos 70 nas minhas memórias destes jogos. O facto de se terem defrontado duas equipas inglesas ajudou com certeza a que este tenha sido um jogo fantástico, pleno de qualidade técnica e emoção. Porque apesar da continentalização do futebol britânico, a mentalidade das suas equipas continua quase intacta: antes de se pensar em não perder (como no continente europeu) pensa-se em ganhar. E joga-se para ganhar, mesmo quando o resultado está empatado no prolongamento. Por isso, a Liga inglesa é hoje a mais interessante de todo o planeta.    

Um jogo de futebol nunca é apenas um jogo de futebol. Representa sempre muito mais. Por isso é tão importante para tantos milhões de pessoas em todo o Mundo. Um jogo de futebol - ainda para mais a este nível - conta sempre uma ou várias histórias, junta diversas narrativas que nos empurram a torcer por uma das equipas em presença, mesmo que não seja a nossa equipa, nem tão pouco uma equipa do nosso país. Ver (viver) um jogo de futebol sem torcer por um dos contendores é ficar de fora, ficar pela dismensão artística e/ ou plástica, vazia e fria. A principal narrativa que envolvia o Manchester United nesta final, pelo menos a partir do ponto de vista português centrava-se no menino prodígio Cristiano Ronaldo, o nosso melhor do mundo. Já do lado do Chelsea a história era ainda mais fascinante: o clube londrino, até hoje de média dimensão, apenas 1 vez campeão inglês antes da chegada de Mourinho e Abrahamovic, que conseguiram reunir um conjunto de jogadores extraordinário, mas até agora incapaz de conquistar a mais mítica competição de clubes a nível mundial: a Taça / Liga dos Campeões. O grupo parecera condenado com a partida do Special One Mourinho, mas um Average One, Grant, conseguira concretizar o sonho de chegar a uma final. A narrativa do Chelsea nesta final era acima de tudo feita de personagens muito fortes: Cech, Carvalho, Terry, Makekele, Lampard, Essien, Joe Cole, Drogba. Os “Soldados de Mourinho”, quase um “onze” completo, junto há quatro anos, bi-campeões ingleses, muitos outros títulos conquistados, mas sempre arredados do grande troféu europeu. E com a consciência geral de que esta seria provavelmente a última hipóteses de esta equipa ser campeã europeia.  Por isso, quando, mais de 120 minutos passados sobre o início de um jogo electrizante, bem jogado, a um ritmo quase asfixiante, John Terry avançou, qual general confiante, para marcar o penalti decisivo, apeteceu-me tapar os olhos e não arriscar uma grande desilusão. Mas não o fiz e tive que assistir a um dos momentos mais dramáticos e tristes da minha já longa carreira de espectador de futebol: Terry, um dos últimos símbolos do amor à camisola versão futebol globalizado, escorrega e deita pela janela fora o título de campeão da Europa. Todos, menos ele! A crueldade pode não ter limite. 

Desliguei a televisão mal Van Der Sar defendeu o penalti de Anelka. Nos minutos seguintes, revi mentalmente os remates ao poste e à barra de Drogba e de Lampard que podiam ter tornado tudo tão diferente. Mas principalmente, revi, vezes sem conta, a escorregadela de Terry no momento da verdade. Pus-me no seu lugar. E tive a certeza de que acabara de testemunhar o nascimento de um mito. Porque as lágrimas de Terry serão sempre muito mais “belas” para mim do que as de Cristiano. Lampard chorava por um clube. Cristiano apenas por si próprio.

João Nuno Coelho 

2 Responses to “A melhor final da Champions e as lágrimas de Terry e Ronaldo.”

  1. Rodrigo de Almada Martins Says:

    Excelente artigo, que só podia vir de alguém que realmente “vive” o futebol.

    Realmente o único facto que nos poderá levar a ficarmos contentes pela vitória dos pupilos de Alex Ferguson é apenas e só ele ter no seu plantel os portugueses Ronaldo e Nani e o brasileiro Anderson, sem esquecer, claro, Carlos Queirós.

    Também o Chelsea tinha Carvalho, Paulo Ferreira e Hilário, embora os dois primeiros já tenham erguido uma Champions League ao serviço do Porto. E além disso, Ferreira e Hilário têm, hoje em dia, um papel bem menos importante no Chelsea do que há bem pouco tempo atrás.

    Além disso, a vitória do Chelsea encerrava curiosidades engraçadas:

    - Avram Grant, caso ganhasse, eliminaria o fantasma Mourinho e a reputação do português, não se pode esconder, ficaria um pouco tremida. Afinal de contas, 3 anos no Chelsea e o máximo que conseguiu foram as meias-finais. Ora, se Grant (um desconhecido do rande futebol europeu) tivesse erguido a Champions, tendo pegado na equipa a meio da temporada, seria um feito fantástico;

    - esta seria, concerteza, a última oportunidade de Terry, Lampard, Carvalho, Cole, Drogba, Makelelé e Essien de erguerem, todos juntos, o troféu máximo pelo qual lutam ano após ano. As saídas de vários jogadores avizinham-se agora…;

    - se o Chelsea tivesse ganho isto seria a prova de que um milionário pode realmente pegar numa equipa “não grande” (O Chelsea será o equivalente em Portugal de um Boavista, Braga, Belenenses ou Guimarães) e levá-la ao topo do futebol mundial. Em certa medida a derrota do Chelsea não pode deixar de sorrir àqueles que ainda crêm num futebol não capitalista, embora, verdade seja dita, o Manchester também pertença ao clã Glazer e deverá ser, por estes dias, logo atrás do Real Madrid, a equipa mais “empresarial” do Mundo. Só que consegue contrariar isso ao ter nas fileiras da frente Sir Alex Ferguson e Sir Bobby Charlton, dois históricos e representantes do futebol “não industrializado”.

    - além disso o Manchester é um clube com história. O Chelsea, apesar de também a ter, não a tem no sentido glorioso do termo. Esta seria a 1ª Liga dos Campeões para o Chelsea, um clube com uma diminuta falange de apoio, mesmo em Londres, já que ser do Chelsea normalmente significa ser-se do clube da classe alta de Londres. Bem diferente do Manchester, um clube mais “do povo”. Contudo, não haja dúvidas que é interessantíssimo ver um clube sem história começar a fazer essa tal história em pleno século XXI. É como se assistíssemos ao nascimento de um Real Madrid, de um Benfica, de um Liverpool… mas agora não nos idos anos 60 mas em pleno século XXI.

    - a vitória do Chelsea teria contornos de magia. Senão vejamos: Final da Liga dos Campeões, Moscovo, jogo fantástico que se prolongou até aos penalties, um homem destinado a bater a penalidade vitoriosa: John Terry, capitão do Chelsea, homem nascido e criado no clube… seria o momento perfeito de um homem e de um clube. Melhor que isso… impossível. Seria ele a levar o Chelsea ao topo do Mundo, após vários anos de crescimento sustentado deste clube londrino, que já vem fazendo a sua escalada no futebol europeu desde os tempos de Gianluca Vialli e Ruud Gullit (lembram-se?), onde pontificavam jogadores como Gianfranco Zola. Ainda antes da chegada de Abramovich (cuja disponibilidade para gastar dinheiro faz com que haja uma corrente anti-Chelsea), o Chelsea já era uma equipa ambiciosa, que lutava por algo mais. O russo deu-lhes apenas aquele toque final… aquela capacidade de ir buscar jogadores como Essien, Drogba, Makelelé, Ballack (com Mourinho não jogava; Grant devolveu-o à boa forma e às grandes exibições), Carvalho… técnicos como Mourinho, entre muitas outras contratações de peso.

    Mas John Terry falhou. E tudo isto não passou de um sonho incabado do Chelsea. Mas o maior elogio que se pode fazer a esta equipa e a este jogador é que esta Final da Liga dos Campeões vai ficar para sempre na história mais conhecida como a noite em que John Terry falhou o penalty que poderia ter dado a Taça ao Chelsea do que a noite em que Van der Saar defendeu a penalidade de Anelka e levou o Manchester a erguer a sua 3ª Liga dos Campeões.

    Contudo, sempre acreditei numa Justiça Divina, mesmo no futebol. Foi assim com o Bayern, naquela Final em Barcelona contra o Manchester… quando o Bayern a ganhar por 1-0, perde por 1-2 nos últimos 2 minutos… porque no ano seguinte lá estavam outra vez na Final, desta vez para erguer a Liga dos Campeões.
    E se o Manchester costuma ter assim tanta sorte… é porque já teve azar bastantes vezes… vem-me agora à memória o desastre de avião em que vieram a falecer vários jogadores dos red devils.

    Isto é futebol. E tenho a suspeita (e o desejo…) de ver o Chelsea erguer uma Liga dos Campeões. De preferência já no próximo ano. Para acabar de evz com os fantasmas. Pena que não tenham deixado Avram Grant realizar a próxima época. A sua despedida foi cruel…

    Bem, a prosa já vai longa.

    Parabéns pelo artigo,

    Rodrigo

  2. Nuno Machado Says:

    Para quem conhece o João na sua faceta desportiva amadora, é fácil estabelecer a ligação com John Terry.

    Abraço e parabéns pelo desabafo, Nuno Machado.

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