Porto Sentido VII – “Tanto Porto!”

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Da última vez que escrevi neste espaço, o Porto ainda mal se levantava do knock-out aplicado pelos alemães do Schalke 04. Foi um choque. A todos pareceu que o Porto era equipa para muito mais do que os oitavos-de-final desta Champions. Pareceu e continua a parecer, pois a cada dia que passa o mundo futebolístico nacional vai-se convencendo da grandíssima valia desta formação.

Mais de dois meses volvidos dessa queda às mãos de Neuer, o Porto já lambeu as feridas, que actualmente estão mais do que cicatrizadas. A confirmação do tri-campeonato com uma goleada de 6-0, a vitória inequívoca sobre o Benfica e a máquina trituradora que passeou classe em Guimarães vieram devolver o sorriso às faces azuis e brancas.

O tri foi óbvio. Foi a última página de uma crónica de um campeonato anunciado. Sem margens para dúvidas e contestações, o Porto mostrou ser um super-campeão. E confirmou-o frente ao rival da Luz. Os olés com que o público brindou os encarnados logo no minuto inicial, além de perfeitamente dispensáveis, só serviram para distrair os jogadores. Quando os adeptos acalmaram e se aperceberam que aquele jogo não era uma festa mas sim uma oportunidade de garantir mais três pontos, Lisandro atirou sem pedir licença para o fundo das redes de Quim. E na segunda parte repetiu o gesto, qual toureiro argentino espetando as bandarilhas no animal já moribundo.

Foi um segundo tempo brilhante do FC Porto, que encostou o seu adversário às cordas como se este não precisasse de ganhar o jogo. Além da exibição e dos festejos, o ponto alto da noite foi, quanto a mim, aquele sprint de vários metros de Lisandro que culminou com um carrinho e roubo de bola ao uruguaio Rodriguez. Eu tive a sorte de estar desse lado da bancada e de ver com os meus olhos o público a levantar-se no iniciar da corrida, a incentivar o esforço, a aplaudir a garra e o querer, a acreditar que seria mesmo possível aquele roubo de bola… até que, com um carrinho fantástico o melhor marcador deste campeonato fica com a bola para ele e entrega-a com toda a classe a um colega. O público aí já só via Lisandro López em campo, o exemplo máximo de um “jogador à Porto”.

Como nota negativa apenas aponto os tais olés e os cartazes dos Super Dragões que incluíram a fotografia de Rui Costa com um chapéu de bombo da festa, o que é manifestamente dispensável, já que estamos a falar de um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos e com um currículo imaculado a nível de fair-play. Rui Costa não o merecia, muito menos no seu ano de despedida dos relvados. Como Baía ou Figo, por exemplo, também não o mereceriam. São símbolos de Portugal, independentemente das suas cores de coração. E a claque, está mais que visto, não é o espelho dos adeptos portistas, porque estes já mostraram ao longo dos anos que sabem ganhar. Foi pena que Rui Costa não tivesse sido substituído no Dragão, de modo a que o povo azul-e-branco lhe pudesse prestar o merecido tributo: uma grande ovação.

A deslocação a Guimarães acabou por confirmar o que todos sabiam e não queriam ver: o Porto não faz favores a ninguém. Nem se preocupa com quem vai atrás de si. Muito atrás aliás. A vitória por 5 golos sem resposta no reduto do 2º classificado – que tinha todo o interesse em vencer para garantir o mais rápido possível a qualificação directa para a liga milionária – é demonstrativa de que nunca como este ano o 2º classificado foi tão o 1º dos últimos. Claro que esta posição do Vitória, a confirmar-se, será histórica e ficará para sempre guardada nos corações dos vimaranenses. Mas ninguém poderá esconder a quase embaraçosa vantagem de mais de 20 pontos para os rivais históricos de Lisboa.

Esta questão encerra um problema bastante mais grave do que se possa pensar. A actual má forma das águias e leões não os prejudica apenas a eles mesmos. Prejudica todo o futebol português, incluindo – por mais estranho que isto possa soar – os dragões. O campeonato português, a este ritmo, tenderá a transformar-se num feudo do FC Porto, à semelhança do que se passa em França com o Lyon, que caminha – pasmem-se! - para o heptacampeonato. Em França há o Lyon e os outros. Em Portugal arriscamo-nos a uma BWIN Liga com o Porto e os outros. E isso é prejudicial para todos. Atente-se, como exemplo, no caso do Lyon na Liga dos Campeões. Partem sempre como uma grande promessa e, mal lhes sai no sorteio uma equipa com alguns pergaminhos, ficam pelo caminho. E com o Porto, este ano, passou-se exactamente o mesmo. E a isso não é alheia a falta de competitividade do nosso campeonato, onde os jogos, mesmo com os rivais, têm pouco ritmo e intensidade.

Esta falta de competitividade interna faz com que a massa adepta do FC Porto já não se contente com o campeonato. A verdade é que estamos acostumados a ganhar. Somos uns meninos mimados, mal habituados. Daí que se tenha notado que a festa já não tem a intensidade de outras épocas. É verdade! O campeonato já não nos enche as medidas. No horizonte azul e branco a Liga dos Campeões é uma realidade.

Prematuramente eliminados da Europa do futebol e com o tri no bolso, o plantel às ordens do Professor Jesualdo Ferreira vai gerindo o seu esforço à espera da Taça de Portugal. O Porto vai gerindo e vai ganhando. E quando ganha (com brilho, diga-se!) não amealha apenas pontos, amealha também futuro. Foi isso que aconteceu em Guimarães. Enquanto uns aproveitam para descansar dos inúmeros jogos nas pernas (caso de Lucho González) e outros se mostram aos olhos das grandes equipas europeias (como Quaresma que, sem qualquer tipo de pressão nos seus ombros, abriu o livro e derramou magia no relvado do D. Afonso Henriques. Porque não jogar sempre assim, Ricardo?), Bolatti, Mariano, Stepanov, Kaz, Farías e até Lino servem-se destes encontros para se assumirem como potenciais reforços para a época 2008/2009 (e até Adriano renasceu para os golos!). A fase de adaptação foi a presente temporada, a próxima será para explodir. E todos nós portistas cada vez temos mais fé nestes jogadores, especialmente em Bolatti, Mariano e Stepanov.

O Porto de Jesualdo dirige-se, assim, em piloto automático para o Jamor. Tirando a novela em torno da cada vez menos provável renovação de Paulo Assunção (espero que a Direcção faça todos os possíveis para manter este super atleta), o Porto vive nas nuvens. E descerá à terra, se tudo correr bem, para conquistar a Taça de Portugal e assim fazer a famosa dobradinha. “Será este o Porto mais forte a nível interno dos últimos anos?”, muitos têm colocado esta questão. Da minha parte a resposta está dada: SIM.

 

 

A SEMANA

 

1 – Mário Jardel (em tempos o Super-Mário) regressou a Portugal depois de ter assumido que tem consumido cocaína nos últimos anos. É impossível deixarmos de sentir pena de um homem que teve Portugal a seus pés após 5 ou 6 épocas a fazer sempre mais de 30 golos e que só os seus sonhos megalómanos o fizeram chegar a este estado. A história de Jardel faz lembrar as lembranças dos nossos pais e avós acerca de determinados grandes jogadores de tempos idos que acabaram na miséria devido a álcool e mulheres. Esperemos que Jardel dê um novo rumo à sua carreira, sob pena de eu também ter que contar esta triste história aos meus filhos.

 

2 – Chelsea X Arsenal. Grandíssimo jogo. E suprema das ironias: Avram Grant, actual treinador do Chelsea, consegue qualificar os blues para a mais importante final a nível de clubes. Fez aquilo que José Mourinho desesperadamente tentou e não conseguiu ao serviço dos londrinos. E o israelita, que resistiu aos cânticos de come back Mourinho, às bocas dos jogadores, às críticas dos jornais e à descrença geral no futuro do clube, não só está na final da Champions League, como também disputa a Premier League taco a taco – estão em igualdade pontual - com a equipa de Sir Alex Ferguson, tida por muitos como imbatível na presente temporada. O futebol europeu transformou-se, por estes dias, numa luta entre Manchester United e Chelsea. Num duelo, quem sabe, entre Cristiano Ronaldo e Didier Drogba. Cá estaremos para ver, em Moscovo.

 Rodrigo de Almada Martins

 

 

nota: o Rodrigo escreveu esta crónica antes do Porto-Nacional. A culpa foi minha que não a pude publicar mais cedo… (João Nuno Coelho) 

One Response to “Porto Sentido VII – “Tanto Porto!””

  1. Nuno Vitória Says:

    Oh Rodrigo!!! É Chelsea vs Liverpool!!!

    Ai que o menino anda a dormir!!!

    =D

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