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A 1ª CRÓNICA DE UM PORTO SENTIDO

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Quis o destino que iniciasse esta minha crónica no FootballIdeas no rescaldo de um emocionante e atípico Sporting-Porto. Atípico porque injusto. E injusto porque caso o bom futebol, o domínio do jogo e as melhores oportunidades valessem 3 pontos, eles iriam direitinhos para o Futebol Clube do Porto. Mas como, até ver, são os golos que contam, os nortenhos saem de Alvalade de mãos a abanar.

Em teoria, o embate entre leões e dragões chegou na melhor altura para os comandados de Jesualdo Ferreira. Num mundo perfeito pintado a azul e branco, o FC Porto chegaria a Alvalade com 14 pontos de vantagem, com a totalidade dos passes de Lisandro López e Quaresma assegurados, com as renovações de Raúl Meireles e do mesmo Quaresma acertadas e sairia de Lisboa com 17 pontos a mais que a turma de Paulo Bento. Nesse mundo perfeito, o Harry Potter do Dragão faria uma exibição de gala (afinal de contas nas laterais estavam os inexperientes Pereirinha e Ronny…) frente ao clube que o formou para o futebol e dessa forma calaria para sempre os assobios dos adeptos que tanto teimam em incomodá-lo. E a sua exibição daria a Pinto da Costa mais um doutoramentohonoris causa na gestão de crises de uma equipa de futebol.

Mas o mundo perfeito, desta vez, pintou-se de verde e branco. O Porto bem se esforçou por manchar essa pintura, mas definitivamente a noite era leonina.

O clássico começou com uma – já habitual – surpresa do Prof. Jesualdo, que surpreendeu tudo e todos ao não incluir no onze inicial nem Ernesto Farías, nem Mariano, nem Adriano, nem Hélder Barbosa, mas sim Marek Cech. O eslovaco ficaria com o papel de 4º médio do meio-campo portista, com o objectivo de combater a grande densidade de jogadores do Sporting nessa zona – segundo o próprio Jesualdo – e, claro, ficaria com a responsabilidade de atacar pela ala esquerda.

E aqui residiu o erro de Jesualdo Ferreira neste jogo: povoar em demasia o flanco esquerdo e deixar desguarnecido o lado direito da sua equipa, confiado que o bom momento de forma de José Bosingwa seria suficiente para travar o melhor flanco do Sporting desta temporada – o esquerdo – onde costumam surgir o cada vez mais decisivo Simon Vukcevic, o argentino Romagnoli (este Pipi adora fugir do centro para a esquerda), Izmailov (que também gosta de deambular nesta zona do terreno e que confirmou ser o carrasco dos campeões nacionais), Liedson (quando vem pressionar ou procurar bola às alas) e o lateral bastante ofensivo Ronny. Mas o bom momento de Bosingwa sofreu forte revés na noite de domingo. Mas já lá vamos.

O jogo começou praticamente com um passe de ruptura de Bosingwa para Lucho González, que surge no corredor central a rematar bastante torto, naquele que seria o primeiro do festival de golos falhados pelo argentino. Logo depois aparece o golo bem anulado a Lisandro, em posição irregular (mesmo assim atenção para o notável golpe de cabeça). E ainda as claques portistas no Alvalade XXI não se tinham sentado após estes dois lances e já surgia a 2ª oportunidade falhada por Lucho, após excelente combinação com o seu compatriota Lisandro.

O que acontece depois vem nos compêndios futebolísticos mais antigos. Quem não marca, sofre. E assim foi. Os 12º e 15º minutos de jogo revelar-se-iam fatais para o conjunto azul e branco.

Importa analisar estes terríveis minutos, pois foram eles a decidir o jogo. A estratégia do FC Porto estava a resultar em pleno, já que nos primeiros 10m o Porto contabilizava duas oportunidades claras de golo e um golo anulado. Contudo, o futebol é fértil em surpresas e em mudanças de rumo em pequenos instantes. E contra isso não há táctica que valha a uma equipa. Se Lucho tivesse sido matador talvez agora estivesse aqui a idolatrar a táctica de Jesualdo Ferreira. Mas como o futebol faz-se de golos, há que apontar os erros.

O desenho táctico dos dragões era bastante estranho, diga-se em abono da verdade. A ideia de Jesualdo era correcta: colocar muitas peças do lado esquerdo do seu ataque para explorar a inexperiência de Pereirinha, lançado às feras devido à lesão de Abel. Mas o Prof. não contava certamente com a grande ajuda de Moutinho a fechar aquela zona do terreno e muito menos com a grande exibição do jovem lateral leonino.

Para além disso, Quaresma raras vezes foi visto no 1º tempo junto das linhas laterais, actuando mais na posição 10, onde perde claramente produtividade. E nem Lucho apareceu pela direita a apoiar José Bosingwa como vinha fazendo tão bem desde a chamada de Tarik Sektioui para a CAN. Já Meireles também pareceu algo perdido em campo com a entrada de Marek Cech, pois isso impediu-o de romper pela esquerda como costuma fazer para aproveitar os desequilíbrios gerados normalmente naquela zona por Ricardo Quaresma, que andou toda a 1ª parte completamente invisível nos terrenos feudais de Miguel Veloso. Mas o 2ª tempo tratou de confirmar que os problemas do Mágico não eram a tal posição 10 nem as botas brancas com que iniciou o jogo, pois mesmo colado às linhas e com as já habituais botas pretas continuou a mostrar-se completamente inconsequente e inofensivo, à excepção de um remate de longa distância que passou perto do poste da baliza de Rui Patrício. A sua substituição perto dos 90m acaba por ser justa, até porque numa equipa como a do FC Porto não pode haver intocáveis.

E com tanta gente na esquerda e no meio, Bosingwa esteve totalmente desapoiado até ao intervalo, quer a defender, quer a atacar. É certo que esteve desinspirado. É certo que Marat Izmailov foi o seu melhor marcador directo nesta temporada. É certo que, se passasse por Izmailov, ainda tinha que ultrapassar Ronny. Mas também é certo que se Lucho ou Quaresma tivessem andado mais por aquela zona ficaria mais fácil para o lateral romper pelo corredor direito como tanto gosta. Jesualdo confiou na sua excelente forma física e deixou o flanco todo ao seu dispôr, mas foi presa fácil para o jogo de sacrifício do russo do Sporting, que nunca o deixou dar profundidade ao seu jogo.

Assim sendo, os lances de ataque portista na 1ª metade (e foram bastantes!), quase sempre gizados no corredor central pelo dueto de tango argentino Lucho & Lisandro, que já jogam juntos de olhos vendados, infelizmente só funcionou até ao momento da finalização, capítulo em que El Comandante esteve muito abaixo do que se lhe reconhece.

Ou seja, o problema do esquema montado pelo FC Porto esteve nas laterais: na direita houve homens a menos (apenas um para falar verdade); na esquerda houve homens a mais e a jogarem mal rotinados. E isso reflectiu-se nos golos do Sporting: espaço a mais no primeiro; confusão e desenquadramento de Cech e Fucile no segundo. Até ao intervalo, o Porto foi uma equipa descompensada, quase coxa do seu lado direito. Claro que não podemos retirar mérito à teia armada por Paulo Bento, que colou Moutinho (à direita) e Izmailov (à esquerda) para travar as investidas dos campeões nacionais. Na frente, Liedson dava muito que fazer aos centrais com as suas movimentações rápidas em toda a largura do ataque, enquanto que Vukcevic gravitava em torno dos espaços deixados pelo Levezinho. Além disso, o montenegrino está naquela fase da vida de um avançado em que qualquer remate que faz é golo, mesmo que com muita sorte à mistura. Mas já não restam dúvidas que Simon Vukcevic (21 anos) é o melhor reforço dos 3 grandes nesta temporada (e já agora, aquela forma de festejar o golo junto dos adeptos é de aplaudir, pois é coisa rara nos tempos que correm).

Ao intervalo, Jesualdo Ferreira corrigiu o erro retirando Marek Cech, fazendo entrar para o seu lugar o motivado Farías, que ou muito me engano ou… não engana! Todos os portistas já depositam grandes esperanças neste avançado, que assim faz com que em vez do dueto passe a haver um terceto de tango para as bandas do Dragão, composto pelos artistas Lucho, Lisandro e Farías. Trouxe uma grande vivacidade ao ataque portista, movimentou-se muito bem, veio várias vezes procurar jogo ao meio-campo, mostrou saber jogar de costas para a baliza e ainda dispôs de duas excelentes oportunidades, desviando uma bola para a baliza que Polga tratou de salvar na linha e realizando um excelente cabeceamento à barra da baliza dos leões. Assim sendo, sobram duas conclusões: a primeira é a de que Farías deveria ter sido incluído no onze inicial de domingo ou que, pelo menos, deveria ter entrado mais cedo; a segunda tem a ver com a provável titularidade ganha pelo argentino para os próximos jogos.

E se Farías rubricou uma excelente exibição, o mesmo se pode dizer de toda a equipa. O intervalo fez bem aos campeões nacionais que, mais uma vez, voltaram a assumir as despesas do jogo. Partiram para cima do Sporting e, em certos momentos, a pressão foi mesmo asfixiante, já que o Sporting se limitava a chutar a bola para a frente sem qualquer nexo, apesar de nunca terem perdido a consistência defensiva. Se o resultado tivesse sido favorável aos dragões não hesitaria aqui em referir que no 2º tempo, em Alvalade, se assistiu a uma lição de futebol, que não teve o seguimento devido porque Farías, Lucho e Lisandro teimaram em não acertar com as redes. Mesmo com um guarda-redes em nítida inferioridade física (após violenta entrada de Liedson), o FC Porto carregou ininterruptamente sobre o Sporting, encostou-o às cordas com toda a raça e querer e só por manifesto azar foi incapaz de aplicar o KO por que tanto lutou. Lisandro, por exemplo, foi o espelho dessa acção: batalhou e lutou como sempre, jogou de costas para a baliza, rematou, distribuiu jogo, roubou bolas e só a infelicidade, Rui Patrício e uma bandeirola de fiscal de linha lhe retiraram o 14º golo na BWIN Liga que tanto fez por merecer.

Penso que todos os portistas estão de acordo que fica um sabor amargo na boca pelo conservadorismo de Jesualdo na hora de escalar o onze inicial, pois de entre todos os jogadores que podiam jogar no lugar habitualmente ocupado por Tarik (Mariano, Barbosa, Cech, Farías e Adriano), o Prof. escolheu o homem menos acutilante em termos ofensivos. Mesmo saindo derrotado de Alvalade, o FC Porto pode levantar a cabeça pois deu a imagem de quase ter uma espécie de superioridade moral face aos seus mais directos adversários, pois quem faz uma 2ª parte deste nível em casa de um rival histórico, após sofrer 2 golos um tanto ou quanto caricatos no 1º tempo, demonstra claramente porque é que vai com 8 pontos de avanço sobre o 2º classificado. O campeão caiu. Mas caiu de pé. Claro que há que saber dar mérito ao jogo de sacrifício do Sporting, mas não podemos escamotear a tremenda superioridade do Porto com os conceitos de “eficácia” e “pragmatismo” a que o staff técnico e o plantel leonino recorreram. Bastava 1/3 das oportunidades terem sido transformadas em golo e os dragões sairiam de Lisboa com mais 3 pontos na bagagem.

Ou isso ou, então, nada do que acima escrevi faz sentido, já que este resultado pode explicar-se porque este Sporting-Porto foi uma partida de futebol. E no futebol pode-se vencer com 41% de posse de bola, com um golo de frango e com outro em fora-de-jogo. 

28 de Janeiro de 2008  

Rodrigo de Almada Martins

3 Responses to “A 1ª CRÓNICA DE UM PORTO SENTIDO”

  1. Nuno Vitória Says:

    Pessoalmente, analisando a coisa de um ponto de vista muito independente, acho que acima de tudo foi um excelente jogo de futebol. O Sporting teve a sorte do jogo, ao marcar 2 golos em menos de nada, mas também não considero que tenha sido cilindrado. O recuo é algo perfeitamente normal em jogos deste género. Não nos esqueçamos do excelente remate do Pereirinha ainda antes dos 2 golos (Helton muito bem colocado), o chapéu falhado do Romagnoli e o falhanço clamoroso do Liedson ao caír do pano.

    Da tua análise, só não concordo com a parte em que dizes que a bandeirola de um fiscal de linha retirou o 14º golo ao Lizandro, porque na realidade… foi o apito do árbitro! =D

  2. goldeplaca Says:

    Bom texto, sem dúvida. Acho que o Porto jogou melhor futebol mas quantas vezes não vemos isto acontecer, com o mais cínico a ganhar? Veremos o que dá o resto do campeoanato.
    Boa sorte para o Blog

  3. Luís Maia Says:

    Como sportinguista ferrenho que sou, fiquei bastante contente com a exibição do meu clube, porque finalmente demonstrou alguma consistência defensiva e (principalmente) mental, e não vacilou na maioria dos momentos importantes, como é apanágio.

    Obviamente (e estatisticamente) a vitória não foi clara como o resultado, mas também não sou da opinião que não tenha sido merecida. O Porto tem sem dúvida o melhor plantel da bwin Liga, é uma equipa muito forte a defender e moldada para os grandes jogos (compare-se a prestação deste clube com a dos outros clubes portugueses na Liga dos Campeões, por exemplo), portanto após ter assistido aos dois jogos contra o Roma e ao jogo contra o Man Utd em Alvalade fiquei contente por ver (finalmente) uma vitória após uma exibição futebolisticamente razoável, apesar da superioridade do adversário.

    Como ponto mais positivo do clássico tenho de salientar o comportamento dos adeptos, dos treinadores e da comunicação social (incluindo tu, Rodrigo), pois em comparação com o que é habitual, o golo em posição irregular do Sporting e as entradas do Bruno Alves e do Liedson foram pouco discutidas e não lhes foram atribuídas as culpas do resultado (parece que desta vez foi mesmo dos jogadores)!

    Para concluir, achei a crónica muito bem escrita, estás de parabéns! Espero que continues a poder escrever que o Porto, apesar de jogar melhor, afinal… mas não me parece ;) Boa sorte para as próximas semanas, vou estar atento!

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