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Jesualdo Ferreira – 4×3x3 ou 4×4x2 ? Eis a questão!

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Quando o Prof. Jesualdo Ferreira iniciou funções no FC Porto, não demorou muito tempo a abolir o ousado 3×4x3 de Adriaanse e a implementar o seu sistema táctico preferido que tão bons resultados lhe deu em Braga: o 4×3x3.

E se por um lado é no 4×3x3 que se sente mais cómodo e que provavelmente lhe vai trazer o segundo campeonato nacional consecutivo e o tri para o FC Porto, por outro é notório o receio que sente em utilizar esse mesmo sistema nos grandes jogos.

Um treinador deve confiar cegamente no seu sistema táctico. Quando isso acontece, a disposição das peças no terreno nunca muda, quer o adversário seja o AC Milan, quer seja o Carcavelinhos. Jesualdo, pelo contrário, já enveredou diversas vezes pelo 4×4x2, quase sempre com resultados pouco animadores. Exemplos disso são os confrontos de Stamford Bridge, Anfield Road e Alvalade, em que o medo do meio-campo das equipas adversárias falou mais alto que as suas próprias convicções.

Ora, se Jesualdo é casado há bastantes anos com o 4×3x3, está mais que visto que não consegue esconder a paixão que nutre pelo 4×4x2. O problema é que, até ver, essa paixão não é correspondida, o que o faz manter o casamento com o sistema táctico actual. Sistema esse que, bem ou mal, tem chegado e sobrado para consumo interno. Mas o técnico dos azuis e brancos tem a plena consciência de que para se triunfar na Europa do futebol é necessário saber manobrar as variantes do 4×4x2, mesmo que esse seja o sistema mais complicado de calibrar por implicar necessariamente uma distribuição menos uniforme dos jogadores no relvado.

Mesmo sendo um sistema que exige muito treino e disciplina (que o diga Paulo Bento!…), é hoje em dia consensual que o 4×4x2 é a melhor arma para se ter sucesso na Champions League. Desde logo porque os jogos se ganham cada vez mais na linha intermediária. Assim, quem colocar mais elementos nessa zona do terreno – se os souber organizar, claro – tem mais probabilidades de ganhar a dura batalha do meio-campo e, consequentemente, de ganhar o jogo.

Jesualdo Ferreira vive, deste modo, num dilema táctico. O tour europeu está aí à porta e inicia-se na Gelsenkirchen de boa memória. Se o 4×3x3 é perfeito para as provas internas, perde nitidamente fulgor nos jogos europeus. Só que o 4×4x2 a que o treinador recorre nestes jogos não tem rotinas e é facilmente anulado. Qual será, então, a solução? Começar a ensaiar o 4×4x2 nos jogos teoricamente mais fáceis da BWIN Liga ou assumir definitivamente o 4×3x3, levando-o até às últimas consequências? Um enigma nada fácil de ser resolvido, visto que nos últimos anos apenas o Barcelona de Rijkaard conseguiu vencer a Liga dos Campeões jogando em 4×3x3, utilizando Ronaldinho, E’too e Giuly na final frente ao Arsenal.

Na minha opinião, muito dificilmente Jesualdo Ferreira conseguirá impor o 4×4x2 no FC Porto. Muito por culpa de um homem: Ricardo Quaresma. Há quem diga que os grandes jogadores jogam em qualquer lado e se encaixam em qualquer sistema. Não concordo. Quaresma e Jardel, por exemplo, demonstram a razão da minha tese. Ambos exigem que se jogue em 4×3x3. O primeiro porque necessita de jogar colado às linhas (embora seja um jogador livre por natureza) para arrancar os seus fantásticos cruzamentos da esquerda (de trivela, preferencialmente) e da direita, implicando ter um homem na área pronto a finalizar; o segundo porque necessita de jogar sozinho na área e de ter dois homens colados às laterais a alimentar a sua fome de golos com cruzamentos milimétricos. Nas antigas Antas esses homens eram Capucho e Drulovic. E talvez tenha sido precisamente o 4×3x3 com que o Porto alinhava na era Mário Jardel que impediu Oliveira e Fernando Santos de triunfar na Europa, já que o terceto da frente era praticamente inofensivo no momento de defender.

Contudo, até por razões históricas se aconselha Jesualdo a optar pelo 4×4x2. Isto, claro, se quiser algo mais do que o sucesso a nível nacional. É que, curiosamente, o FC Porto alinhou sempre em 4×4x2 nas suas grandes conquistas europeias. Em Viena, face à lesão do bi-bota Fernando Gomes, Artur Jorge surpreendeu os alemães ao não colocar um ponta-de-lança fixo e a introduzir Madjer e Futre, vagabundos na frente. Em Sevilha, seria a vez do castigo de Postiga o impedir de jogar a final. Mourinho decide colocar, então, Nuno Capucho (preterindo Jankauskas) para fazer parelha na linha avançada com Derlei. Em Gelsenkirchen, Mourinho volta a optar de novo por 2 homens soltos na frente: Derlei e Carlos Alberto. Sempre com o losango atrás deste homens, claro. The history repeats itself

Mas a este FC Porto falta, essencialmente, o tal quarto médio, indispensável num 4×4x2. E esse médio nunca poderá ser, por exemplo, Marek Cech. Bolatti chegou a ser pensado como uma solução, fazendo adiantar Assunção no terreno para jogar lado a lado com Meireles, libertando Lucho para missões mais ofensivas. Mas o trinco argentino está a demorar a adaptar-se ao futebol do Velho Continente. Leandro Lima seria também um jogador interessante para este sistema, mas padece do mesmo mal de Bolatti. Kazmierczak tem mostrado sentir muito o peso da camisola. Quaresma, Sektioui e Barbosa são homens de rasgos, de rupturas, dependentes da inspiração, necessitados das linhas laterais para explanarem o seu futebol. Por isso mesmo e também por não defenderem, nunca poderão participar na gestão do meio-campo, na ocupação dos espaços e nos processos de transição ofensiva e defensiva que faziam do Porto de Sevilha e do Porto de Gelsenkirchen equipas dominadoras da zona central do relvado. O trio base destas conquistas era composto por Costinha, Maniche e Deco. Frente ao Celtic juntou-se-lhes o russo Alenitchev, enquanto que diante do Mónaco foi a vez de Pedro Mendes ocupar um lugar no losango. Daí que a contratação de Belluschi ou o regresso de Ibson, médios de alguma maneira semelhantes a Alenitchev e a Mendes, se me tivessem afigurado como ideais. E quem sabe se um montenegrino canhoto (que em tempos esteve nas cogitações de Jesualdo) não encaixaria bem neste eventual sistema? Estes jogadores acabaram por não vir parar ao Dragão. Por isso, o enigma continua. O Professor tem a palavra!

 

 

A SEMANA

 

O fim-de-semana futebolístico veio mostrar que a jornada passada foi mais própria do dia 1 de Abril do que de finais de Janeiro. O Benfica confirmou não ser a equipa unida e com capacidade de sacrifício que esteve na cidade-Berço e o Sporting demonstrou não ser a equipa eficaz e pragmática que defrontou os bi-campeões nacionais. O FC Porto fez a União de Leiria pagar a factura (como em tempos alguém disse…) da derrota em Alvalade e logo com uma goleada. O regresso do 4×3x3 devolveu a fluidez e a liberdade de movimentos à equipa, num jogo marcado pelas sociedades que a equipa de Jesualdo vai criando jornada após jornada: à Lucho & Lisandro, SA junta-se agora a Quaresma e Farías, Lda.

Por isso, as declarações de Celsinho e de Edcarlos só transparecem o desconhecimento dos atletas em questão da realidade do nosso futebol. E são péssimas para eles e para os próprios associados dos seus clubes, que se agarram a estes ditos numa réstia de esperança, saindo depois facilmente desiludidos e com vontade de assobiar e abanar lenços brancos.

E isto numa semana de trabalho que até se revelou algo instável para as bandas do Olival, devido ao caso Leandro Lima. Já se suspeitava que nesta história havia gato. E pelos vistos houve mesmo. Terá o FC Porto comprado “gato” por lebre? Aí está mais uma história para seguir nos próximos capítulos.

                                                                         Rodrigo de Almada Martins

 

 

6 Responses to “Jesualdo Ferreira – 4×3x3 ou 4×4x2 ? Eis a questão!”

  1. Fc05 Says:

    Em primeiro lugar queria dizer que concordo plenamente com a observação deste dilema que preocupa as almas portistas e que junto com o mais pequeno desaire trás logo as vozes de quem quer a cabeça de Jesualdo a todo o custo.

    Apenas queria salientar uma dúvida que tenho, salvo engano meu, na final de Sevilha Mourinho foi obrigado a mudar o esquema táctica com uma lesão do Jankauskas no ultimo treino antes do jogo.

    E quanto ao meio-campo do porto num possível 4-4-2, acho que tudo pode depender de conseguir tirar um bom rendimento do Mariano, que parece passar ao lado de cada oportunidade. mas que pelo que conheço podia no seu melhor com o Raul e Lucho criar um triângulo á frente do Paulo Assunção capaz de ter uma dinâmica muito consistente frente a qualquer adversário.

    Abraço

  2. Diogo Sousa Says:

    Para mim acho que não tem de existir muito problema, o Porto tem de jogar em 4-3-3 porque a equipa já tem adquiridos todos os procesos de jogo nesta tactica e mexer agora no que já vem a ser feito á 2 anos acho que é prejudicial.
    Se bem que o Porto na Liga dos Campeoes talvez terá de optar por um modelo que preencha mais o meio-campo.

    Bom “sitio”!

    http://mestresdofutebol.blogspot.com

  3. Rodrigo de Almada Martins Says:

    Respondendo ao Fc05, Mourinho refere na sua mini-biografia escrita por Luís Lourenço o seguinte:

    “(..) para suprir a ausência do Hélder Postiga muitos pensavam em Jankauskas. Para mim era claro que não seira esse o caminho. Edgaras estava parado há umas semanas e, pela sua estrutura morfológica e caracaterístcias de jogo, o “transfer” para as rotinas dos escoceses era perfeito. Com Jankauskas iríamos, na minha opinião, dar-lhes precisamente o que eles queriam, ou seja, reduzir a imprevisibilidade e, simultanemanete, retirar-me a possibilidade de ter no banco um ponta-de-lança de raiz, que poderia utilizar no jogo directo caso não fosse bem sucedido nas minhas ideias e plano de jogo. A dúvida era Capucho ou Marco Ferreira e com ela entrei no autocarro que nos levou até ao aeroporto Francisco Sá Carneiro.”

    É verdade que Jankauskas se lesionou num dos treinos que antecedeu o jogo, mas fica claro no livro que Mourinho nunca pensou jogar com o lituano de início. E optou bem, visto que Capucho fez um excelente jogo. E o Marco Ferreira, quando entrou, foi importante ao pressionar o GR do Celtic naquela bola que sobra para o Derlei e dá o 3º e decisivo golo ao Porto.

    Muito obrigado pelos comentários.

    Rodrigo de Almada Martins

  4. pedro rocha Says:

    so tenho pena que o benfica não tenha uma direcção de peso como tem o fc porto, infelizmente continuamos a ser dominados por aqueles camelos de lisboa que nem do slb são….

    mas mesmo assim dou os parabens ao fcp pela excelente época que está a fazer…

    saudações benfiquistas

  5. Luís Maia Says:

    Após ler o teu artigo fiquei a pensar numa frase do actual treinador do Real Madrid, Bernd Schuster, que em vésperas do último confronto com o Barcelona afirmou convictamente que a equipa catalã era sem dúvida a equipa europeia que melhor utilizava os espaços em campo e que conseguia com enorme facilidade conferir muita largura ao seu jogo.

    Eu concordo, quando o Barça está em boa forma. E parece-me que, num plantel cuja principal arma ofensiva é o jogo pelas alas (Bosingwa, Quaresma, Tarik), o 4×3x3 é a melhor táctica. Por outro lado, apesar de apenas o Barcelona, jogando com esse sistema, ter vencido a Liga dos Campeões nas últimas épocas, o 4×3x3 não é utilizado usualmente nem em Inglaterra nem em Itália, e raramente em Espanha, por isso o Barça é também das poucas equipas a jogar efectivamente com base nesse sistema de jogo.

    Por isso pergunto-me: Será que o 4×3x3 é à partida menos utilizado por ser intrinsecamente “fraco” quando comparado a um 4×4x2 ou simplesmente devido às características dos planteis? E já agora, porque é que no Barcelona ele tem tanto sucesso, mesmo a nível europeu?

    Fico à espera da tua opinião! Abraço

  6. Rodrigo de Almada Martins Says:

    Luís, muito obrigado pelo teu comentário e pelas tuas questões, sem dúvida muito interessantes.

    Em minha opinião, quando se tem numa equipa grandes jogadores formados de raiz para jogar nos flancos (casos de Giggs, Cristiano Ronaldo, Robben, Quaresma, Messi, etc), eu penso que é normal a atracção dos treinadores em utilizarem o 4×3x3. Mas se me perguntarem se é o melhor sistema, digo claramente que não! A questão é mais esta: a maioria dos treinadores tem uma grande dificuldade em conseguir encaixar estes extremos puros num esquema táctico de 4×4x2.

    Isto porque normalmente num meio-campo 4×4x2 utliza-se jogadores que sabem jogar fundamentalmente no centro do terreno e que, quando descaem para as alas, flectem para o centro do terreno, raramente indo à linha de fundo cruzar.

    Os esquemas de 4×4x2 baseiam-se mais nestas movimentações, ficando os dois homens da frente com a responsabilidade de serem eles a deslocarem-se do centro para as alas (como muito bem faziam o Derlei e o Liedson neste início de época leonina ou o McCarthy e o Derlei no Porto - isto quando o Derlei não estava lesionado), no movimento inverso aos dos jogadores que actuam mais colados às linhas.

    A prova da superioridade de um sistema táctico são as vitórias. E o mesmo vale para os clubes. E se há sistema táctico e clube vencedor na Europa dos últimos anos, ele é o 4×4x2 do AC Milan. O Milan, com Ancelotti tem actuado sempre com dois laterais altos e fortes a defender e que sobem muito bem no seu corredor (Cafú, Oddo, Sérginho, Kaladze, Jankulovsky), um trinco organizador (o magnífico Pirlo), um médio defensivo puro (Gattuso), um homem na esquerda a flectir para o meio (até porque é dextro: Clarence Seedorf), um homem a número 10 (Kaká) e dois avançados móveis na frente (de início foram Inzaghi, Crespo ou Sheva, depois Inzagui e Gillardino e agora temos Ronaldo e Pato). Se bem que ultimamente o Milan até tem jogado mais em 4×5x1, apenas com um homem na frente, já que tem introduzido mais um homem no meio-campo: Ambrosini. Mas neste caso Kaká avança mais no terreno e joga mais próximo do ponta-de-lança.

    Mas não concordo quando referes que o 4×3x3 não tem sido muito utilizado. Olha, o Real, por exemplo joga também num 4×3x3, aliás muito semelhante ao do Porto, pois jogam com um homem na esquerda (Quaresma/Robinho) e dois homens no centro, deixando a ala direita entregue ao lateral (Lisandro e Farías/Raúl e Van Nisteljroy, enquanto que na ala fica Bosingwa/Sérgio Ramos ou Salgado). O Manchester também joga num 4×3x3, com Ronaldo, Rooney e Tevez na frente… o Chelsea por vezes joga com Malouda, Drogba (Anelka) e Wright-Philips…

    E realmente o Barcelona só teve sucesso naquelas duas épocas… agora tem tido bastantes dificuldades, mas também devido a problemas como quebra de Ronaldinho, Deco, inadaptação de Henry, etc.

    Para finalizar, penso também que é muito díficil jogar em 4×4x2 quando se tem um extremo de raiz de qualidade no plantel. Porque normalmente esses jogadores jogam muito colados às linhas, têm por isso uma zona de terreno de jogo menor e são nromalmente jogadores pouco solidáriso an hora de defender. E num 4×4x2 todos têm que defender, enquanto quem num 4×3x3 essas debilidades são menos notórias.

    Um abraço!

    Rodrigo de Almada Martins

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