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Porto Sentido III - O legado de Co Adriaanse

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Co Adriaanse saiu do FC Porto em circunstâncias estranhas. Confesso que nunca percebi a sua saída. Custa-me compreender que alguém (que até já começava a dominar a língua portuguesa) se tenha demitido de treinador de uma equipa campeã com um risonho futuro à sua frente apenas porque não lhe dão o ponta-de-lança que tanto desejava para fazer dos dragões a máquina de golos com que prometia assustar a Europa.

Claro que outras questões internas, como a deterioração das relações pessoais entre o holandês e alguns dos seus pupilos foram determinantes para o fim do reinado deste homem ao leme dos destinos dos nortenhos. Mas nessa atribulada pré-época foi notoriamentevisível, através de declarações para os jornais, o crescendo de irritação deAdriaanse pela não concretização da transferência de Hesselink, que viria a ser transferido para os escoceses do Celtic. De facto, Pinto da Costa e CoAdriaanse nem sempre estiveram em sintonia no capítulo das contratações. Já na novela Kromkamp (logo no ano de chegada do holandês), a SAD portista mostrou que não estava disposta a cometer a loucura de contratar um lateral direito porcerca de 8 milhões de euros, o mesmo se passando na pré-época seguinte com ogoleador do PSV, que custaria à volta de 10 milhões de euros. E convenhamos que, pelo menos neste aspecto, a SAD azul e branca esteve bem, visto que oexemplo de Cardozo é suficiente para provar que nenhum clube lusitano tem condições para arcar com o risco de contratar um jogador por essa verba.

 

As histórias de Kromkamp e Hesselink são demonstradoras da teimosia e até arrogância do holandês. De facto, Adriaanse nunca percebeu que o problema do seu Porto na Champions League não era a ausência de um “matador” que fizesse a diferença no jogo aéreo, mas sim o meio-campo, exactamente o mesmo que acontece com Jesualdo Ferreira. Com a agravante, claro,do primeiro jogar com apenas três defesas, enquanto que o segundo joga com os tradicionais quatro. A avaria do sistema estava no ousado e ao mesmo tempo apaixonante 3×4x3 (tão ao gosto do país das tulipas) e não na frente de ataque,onde até dispunha do exuberante Benni McCarthy. Aliás, segundo se veio a sabermais tarde, o sul-africano só quis abandonar o Dragão (no início da temporada 06/07) devido à má relação que mantinha com Co Adriaanse. Tivesse ele esperado mais uma semana e teria tido uma boa notícia.

 

Adriaanse tinha bastantesdefeitos, concordo. É inegável. Contudo, penso que chegou a hora dos portistas lhe darem o devido mérito. As grandes instituições – e o FC Porto é sem dúvida uma delas – devem saber olhar para o passado de frente, não caindo na tentativa de reescrevê-lo. E a Co Adriaanse deve ser-lhe reconhecida a importância vital que teve no ressurgir de um Porto dominador na pátria lusa e atrevido além fronteiras.

É importante recordar que este holandês chegou à Invicta numa altura bastante complicada. A época anterior tinha sido tudo menos pacífica, apesar da conquista da Taça Intercontinental. O clube vivia ainda na ressaca pós-Mourinho, tinha perdido o campeonato na derradeira jornada para o Benfica de Trapattoni e as entradas e saídas eram muitas. A contestação dos sócios era grande, em virtude da “escola de samba”adquirida na janela de transferências de Inverno com as contratações algo precipitadas de Pitbull, Léo Lima, Bomfim e Leandro.

 

Co Adriaanse chegou e foi capaz de fazer aquilo que Del Neri, Fernandez e Couceiro não conseguiram: arrumar a casa e devolver a disciplina ao balneário. Jogadores desmotivados e sem chama saíram (casos de Costinha, Maniche, Luís Fabiano e Derlei), bem como a tal “escola de samba”, que foi empurrada para fora do clube. A partir daí, começou a construir equipa ganhadora em torno de Lucho González.

 

A Adriaanse muita coisa lhe pode ser apontada. Mas duvido que houvesse alguém capaz de, naquela altura, fazer melhor. É certo que Diego, que agora confirma todo o seu potencial na Alemanha, não conseguiu ser aproveitado por este treinador. Mas também duvido que o brasileiro conseguisse entrar no actual esquema do Professor. A contratação de Sonkaya foi claramente um tiro longe do alvo, mas erros de casting acontecem todas as temporadas (Mariano, por exemplo). Também lhe podem atirar o facto de McCarthy não ter rendido, mas a verdade é que também com os três treinadores da época anterior o sul-africano pareceu sempre um jogador desconcentrado e desanimado. E Ibson, Jorginho e Postiga (chegou a ser testado a 10, lembram-se?) demonstraram com Jesualdo que se calhar o defeito era deles mesmos e não de… Co Adriaanse!

 

Ou seja, na maioria das questões em que Adriaanse não esteve tão bem, os outros não estiveram melhor. Por isso, analisemos as coisas boas, para além da dobradinha, obviamente. Desde logo, temos de pegar nos exemplos de Bosingwa, Pepe e Quaresma. Bosingwa, a jogar numa defesa de três centrais aperfeiçoou o seu jogo aéreo, a sua marcação e ainda as suas subidas pelocorredor direito, tornando-se num lateral direito hoje em dia cobiçado pelo Manchester United; Pepe, que era assobiado desde a sua contratação, tornou-se no Senhor 30 milhões, sucedendo a Ricardo Carvalho; e há-de chegar o dia de Quaresma agradecer publicamente ao holandês por se ter tornado definitivamente num jogador de classe mundial (aliás, alguns problemas de Ricardo Quaresma no tempo de Adriaanse mantêm-se na era Jesualdo, com os mesmos assobios  à mistura).

 

Para além destes três casos flagrantes, podemos referir outros, sem dúvida com a chancela Co Adriaanse: a definição de Helton como titular da baliza dos dragões, num processo que foi mais suave do que o previsto; a descoberta do potencial de Bruno Alves, que é hoje um central de elevada categoria; Paulo Assunção foi o eleito para ocupar o lugar deixado vago por Costinha e tem feito épocas fantásticas, mostrando ser um atleta de eleição; Raul Meireles confirmou todo o valor que tinha mostrado no Bessa mas que, na sua época de estreia, andou escondido; Lucho foi o El Comandante sobre o qual se ergueu o 3×4x3; Adriano mostrou dotes de goleador, dando vários troféus ao FC Porto; a entrada do prodígio Anderson em jogos a doer foi gerida com muita inteligência e sem pressas; Lisandro, apesar de jogar deslocado na direita e de render muito menos do que hoje, já ia espalhando o terror com as suas diagonais e nunca sofreu muito com a mudança para o futebol europeu, ao contrário de Bergessio ou Cardozo, por exemplo; e Tarik, que foi recrutado ao seu antigo AZ Alkmaar, apesar de não ter rendido no imediato, já mostrou que é um jogador especial, capaz de decidir um jogo.

 

É consensual dizer-se nos dias que correm que o Porto ganha porque tem o meio-campo mais forte, quer a defender, quer a atacar. Ora esse meio-campo composto por Assunção, Meireles e Lucho ganhou rotinas precisamente com Co Adriaanse. E desta defesa apenas Fucile ainda não estava no Dragão. No ataque também nada mudou, à excepção de Farias.

 

Por isso, penso que chegou a hora de dizermos um Muito Obrigado a Mr. Adriaanse. Dê-se o mérito a quem o merece. Este novo ciclo vencedor do FC Porto tem a sua marca. A César o que é de César. A Adriaanse o que é de Adriaanse.

 

Rodrigo de Almada Martins

 

 

One Response to “Porto Sentido III - O legado de Co Adriaanse”

  1. Nuno Vitória Says:

    Excelente análise. Só não concordo com duas coisas:

    - Se 10 milhões foram “exageradamente” empregues (não digo mal, pois é forte) no Cardozo, eram muito bem empregues no Jan Vennegoor of Hesselink.

    - Bruno Alves um central de elevada categoria… calma lá! Está em grande forma, é um jogador útil, mas ainda lhe falta muito para poder ser apelidado de “elevada categoria”!

    São opiniões. ;)

    Um abraço, companheiro!

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