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Porto Sentido IV – “Falem antes de Porto-dependência!”

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      Desde há alguns anos que certa comunicação social tenta desesperadamente colocar dependências no FC Porto, como se o clube ganhasse os campeonatos não por ter uma equipa sólida, mas sim por ter um ou dois jogadores que fazem a máquina carburar. Confesso que nunca gostei muito destas dependências. Porque elas raramente ou nunca existem, de facto. 

      Julgo que esta mania começou com o chamado “fantasma” Baía, que pairou durante alguns anos nas Antas, sem que Wozniak, Rui Correia, Hilário, Silvino, Eriksson ou Kralij conseguissem fazer esquecer o mítico guarda-redes português, então ausente em Barcelona. Ora, penso que o problema começou exactamente aqui: a saída de Vítor Baía criou mesmo um “fantasma”, as luvas dos guarda-redes seguintes pareciam queimar. E esse “fantasma” só foi exorcizado com o regresso do próprio… Vítor Baía, em carne e osso. 

      Depois disso muito se falou da falta que o estratega Zlatko Zahovic ia fazer. O esloveno foi para a Grécia e começou a brilhar um rapazinho que dava pelo nome de Deco. 

      Enquanto Deco se ia fazendo um senhor jogador, trataram de arranjar uma nova dependência para o Porto: Mário Jardel, o Super-Mário, o artilheiro-mor do campeonato nacional em 5 épocas de dragão ao peito. Jardel saiu para Istambul e parecia que um novo “fantasma” ia aparecer. Mas logo surge um brasileiro chamado Pena que, com uma primeira época fantástica, se torna também ele no goleador máximo do nosso campeonato. É verdade que as épocas seguintes não lhe correram tão bem, mas serviu para mostrar que havia vida para lá de Jardel. Depois, Derlei, Postiga da fase Mourinho, McCarthy e agora Lisandro vieram demonstrar que o Porto é terra fértil para os avançados se tornarem goleadores. 

      Enterrados os cabeceamentos fulminantes de Jardel, uma nova dependência surgiu aos olhos de muitos. Desta vez centrada no tal rapazinho que começou a espalhar classe depois de Zahovic. Quem não se lembra de ter ouvido falar em Deco-dependência? Deco saiu e depois da atribulada época de Del Neri, Fernández e Couceiro surgiu um meio-campo bastante coeso e eficaz composto por Paulo Assunção, Raúl Meireles e Lucho González. Meio-campo esse que não fica muito atrás do célebre trio de Gelsenkirchen: Costinha, Maniche e Deco. 

      A par da suposta Deco-dependência, começa a desenhar-se, a partir da Final de Sevilha, outro “fantasma”: José Mourinho. Muitos apregoavam que o previsível adeus de Mourinho significaria o início da derrocada de Pinto da Costa e do Futebol Clube do Porto. Claro que com a saída do special one e com a autêntica sangria que o plantel sofreu, era óbvio que o reino portista sofresse um abalo, daqueles que aparecem na escala de Richter. O Dragão tremeu bastante, é certo. Mas mesmo assim chegou para erguer a segunda Taça Intercontinental da história do clube e para disputar o campeonato até à última jornada. Tudo isto numa época em que entraram e saíram dezenas de jogadores (diga-se que muitos dos que entraram não tinham categoria para envergar a camisola azul-e-branca e a maioria dos que saíram eram jogadores de classe mundial), conforme os ideais futebolísticos de cada um dos três treinadores que se sentaram no banco do Dragão. Na época seguinte seria um holandês (de que já me ocupei aqui numa crónica anterior) a devolver a estabilidade e o bom futebol aos adeptos portistas. 

      Depois veio o Apito Dourado e as biografias de vão de escada. Novamente se vaticinou a queda do Presidente Pinto da Costa e, consequentemente, do FC Porto. Mas a realidade é que o Porto caminha a passos largos para segundo tri da sua história. 

      A última novela gira em torno de Ricardo Quaresma, o Harry Potter do Dragão. Depois do jogo com o Nacional e do golo de Lipatin, tinha ficado provado, diziam muitos, que o Porto era Quaresma-dependente. Após o jogo frente ao Paços de Ferreira, pelos vistos, tudo mudou. Afinal o Porto até joga melhor sem ele, pois o rapaz prende demasiado a bola. Sem ele o futebol portista mais fluído. O Tarik e o Lisandro estão em grande forma e o Farías (e até o Mariano, pasme-se) não são assim tão maus como se pensava no início da temporada. Esta última vitória do Porto sem as quaresmices do costume gerou uma fogueira para jornais, rádios e televisões. Jesualdo é questionado todos os dias sobre isso e os seus colegas são inquiridos constantemente sobre a importância do internacional português. A última acha foi o n.º 7 não ter sido convocado para o jogo da Taça de Portugal frente ao Gil Vicente, que também terminou com uma vitória dos dragões. 

      Mas que ninguém se preocupe sobre a falta de fantasmas! Parece que já arranjaram outro, aliás, outros! Agora a discussão gira em torno do tango argentino. 

      Claro que tudo isto não passa de um rebuçado para nos distrair do essencial: o Porto é uma equipa a anos-luz das outras em Portugal e permite-se ganhar confortavelmente e jogando bem mesmo sem o seu maior artista. E se a equipa consegue ganhar sem Quaresma isso não significa que seja preferível jogar sem ele. E quando os argentinos saírem outros aparecerão. É que, se analisarmos bem o trajecto dos supostos fantasmas depois de terem abandonado a cidade Invicta, vemos claramente que o local onde foram mais felizes foi nas Antas/Dragão.  

      Baía foi infeliz na Catalunha; Zahovic ainda fez uma boa época no Olympiacos e depois acabou a fazer jogos miseráveis no Valência e no Benfica; Jardel teve algum sucesso na Turquia e alcançou no Sporting a sua melhor marca pessoal, mas acabou por se perder em Lisboa, andando hoje completamente perdido para o futebol de alto nível; Costinha, Derlei e Maniche, depois de deixarem o Dragão, nunca mais se reencontraram com as grandes exibições; o próprio José Mourinho, apesar do imenso sucesso interno do seu Chelsea, foi incapaz de dar a Abramovich o que tinha dado a Pinto da Costa e aos portistas: uma Liga dos Campeões. A excepção é Deco, que conseguiu ter um grande sucesso em Barcelona. É por isso que eu prefiro falar em Porto-dependência por parte destes personagens. O FC Porto acabou por ser o ponto alto das suas vidas futebolísticas. O que resulta óbvio é que a maioria dos atletas rende mais no Porto do que em qualquer outro lado. 

      O curioso é que pouco se tem falado do verdadeiro “fantasma” que hoje existe no futebol português. Não assombra no Dragão, mas sim na Luz. Falo obviamente de Simão Sabrosa, grandíssimo jogador, capaz de garantir 15 golos por época, dar outros tantos a marcar, exímio batedor de cantos, livres e grandes penalidades. Um jogador que carregou o Benfica às costas nas últimas épocas. E pelo andar da carruagem, o Benfica arrisca-se a ficar com outra assombração, quando Rui Costa pendurar definitivamente as chuteiras no final da época. 

      Contudo, o futebol é propício ao aparecimento repentino de novos ídolos, capazes de nos fazerem esquecer rapidamente as anteriores estrelas. Um bom exemplo disso é a mítica camisola 7 do Manchester United, sucessivamente envergada por George Best, Bryan Robson, Eric Cantona, David Beckham e, agora, Cristiano Ronaldo. E não duvidemos que depois do português aparecerá outro, tão bom ou melhor do que ele. É essa a beleza do futebol. Quando julgamos que vamos ficar órfãos de uma estrela, logo aparece um novo menino a fintar tudo e todos, a brincar com a bola, a deixar adversários colados ao relvado e a seguir em direcção à baliza. E depois esse menino envelhece, deixa de conseguir fazer o que fazia e logo é suplantado por outro. É por isso que o futebol nunca há-de morrer.    

A SEMANA  

1 – As semanas vão passando e de Leandro Lima não surge qualquer notícia. Será que o problema é apenas a tal questão da idade? Aguardemos pelas notícias, que tardem em chegar; 

2 – A renovação de Paulo Assunção parece estar encravada. Espero que se chegue rapidamente a uma solução que agrade a todas as partes. Relembro que foi a não renovação e consequente saída de Makelélé que destruiu o equilíbrio dos Zidanes & Pavónes do Real Madrid de Florentino Pérez. 

3 – Mais um grande jogador que abandonou os relvados portugueses sem a glória merecida. Falo obviamente de João Vieira Pinto, o Grande Artista, o Menino de Ouro. Entre outras inúmeras qualidades que possuía, penso que foi o jogador com melhor jogo de cabeça que conheci, logo depois de Mário Jardel. Jogava naquela posição indefinida de falso ponta-de-lança, que hoje em dia está em crise. Nem era médio nem avançado. Nem um 10. Mas tinha um pouco de tudo isso. Na memória de todos ficarão para sempre aqueles 3 golos em Alvalade e o genial golpe de cabeça frente à Inglaterra no Euro 2000.

      Tenho pena que João Vieira Pinto não tenha tido o adeus que merecia. Há uns anos, num carro de um amigo meu benfiquista, estávamos a ouvir um CD do Zé Manel Taxista (Maria Rueff) dedicado ao Benfica. Até que esse personagem começa a dizer em voz alta e rapidamente os grandes nomes do Benfica: Eusébio, Simões, Germano, José Águas, Coluna, Chalana, Humberto Coelho, Veloso, Magnusson, Rui Águas, Mozer, Ricardo Gomes, Rui Costa, Preud’Homme, Poborsky, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, entre muitos outros. Quando a lista chega ao fim, esse meu amigo olha para mim meio envergonhado e diz com voz sentida “Reparaste? Esqueceram-se do João Pinto…”. Assim se reescreve a história. Se o Menino de Ouro tivesse jogado no seu clube de pequenino talvez o seu percurso tivesse sido diferente.  

Rodrigo de Almada Martins

 

2 Responses to “Porto Sentido IV – “Falem antes de Porto-dependência!””

  1. NMOliveira Says:

    Há coisas curiosas: tinha pensado sobre o facto do JV Pinto nunca ter jogado no clube do seu coração (pelo menos na infância) quando soube da sua saída do Sp. Braga e pouco depois li este excelente artigo e vi uma entrevista do JVP ao Canal Porto onde ele falou da sua costela portista que se foi diluindo com o tempo e com a rivalidade de todos os clubes pelos quais passou com os portistas. Mas a verdade é que tivesse ele jogado no Porto e podia hoje ter muitos mais títulos do que tem, incluindo títulos internacionais coisa que só ganhou nos sonhos dele.
    Aliás, o JVP passou mesmo ao lado de uma grande carreira internacional, porque foi um fantástico jogador. Deixa muito a desejar noutros aspectos (basta lembrar as agressões a árbitros, insultos permenentes a árbitros e outros agentes desportivos, como aquele famoso gesto em relação ao Deco, que nunca mais esquecerei e que foi das coisas baixas que vi no futebol.
    Mas pronto, às vezes dentro do campo a emoção sobrepõe-se ao resto. Agora vai ter tempo para amadurecer…
    NMO

  2. es mm tripeiro Says:

    es pouco faccioso es

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