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Porto Sentido V – “A dúvida que nos assalta”

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      Foi um FC Porto muito versão Intercalar aquele que subiu ao relvado do Bessa no passado Sábado. Jesualdo Ferreira optou por fazer descansar a grande maioria da equipa titular e lançou às feras, de uma assentada, João Paulo, Stepanov, Kaz, Mariano e Adriano. Todos eles cumpriram com o que lhes era pedido, especialmente o argentino Mariano González, que começa finalmente a justificar a persistente aposta do Mestre Jesualdo, conforme Pinto da Costa tratou recentemente numa entrevista televisiva, argumentando que “professores há muitos”.

      Na segunda parte, os mais rodados Quaresma, Tarik e Meireles trataram de encostar o Boavista à sua baliza e só por manifesto azar o endiabrado número 7 não aplicou o golpe de misericórdia que o Porto fez por merecer. 

      Na semana dos derbies das duas maiores cidades portuguesas, acabou por ficar tudo na mesma. Contudo, diga-se, em abono da verdade, estes derbies já não são tãoderbies assim. Em Lisboa, o outrora mais escaldante clássico do futebol português tem-se resumido nos últimos anos quase sempre a uma batalha pelo acesso à Champions e já não pelo ceptro de campeão nacional. Quer Benfica, quer Sporting, apresentam nos dias de hoje plantéis com poucos jogadores portugueses, com pouca casa, com diminuta ou mesmo nenhuma cultura do futebol português, e modos que, para homens como Cardozo, Dí Maria, Rodriguez, Izmailov, Vukcevic, Maxi Pereira, Grimi, Tiuí ou Farnerud, defrontar o rival da segunda circular é o mesmo que jogar contra o Beira-Mar, Setúbal ou União de Leiria, só que com mais adeptos a assistir. Da mesma forma que nós não conseguimos vislumbrar qualquer emoção extra num Peñarol – Nacional de Motevideu ou num Partizan de Belgrado – Estrela Vermelha, também estes jogadores não sabem o que significa um Sporting – Benfica. E dificilmente o conseguirão perceber, dada a escassez de símbolos futebolísticos em cada um dos conjuntos. Temos que entender que os nossos confrontos não têm a dimensão mundial de clássicos como um Barça – Real, um Manchester – Liverpool ou um Milan – Juventus. Daí que seja difícil fazer sentir a estes jogadores o picante de um derby lisboeta com tantos e tantos anos de história. 

      Na Invicta, vive-se o mesmo problema, principalmente nos axadrezados. Olhar para este Boavista e compará-lo com o Boavista de Manuel José onde pontificavam históricos como Bobó, Tavares, Nelo, Rui Bento, Nogueira, o “eterno” capitão Paulo Sousa, Caetano, Venâncio, Casaca, os magníficos guardiões Alfredo e Lemajic e ainda jogadores da categoria de Erwin Sanchez, Artur, Ricky e Marlon Brandão é o mesmo que comparar o Ronaldinho de há 3 épocas com o Ronaldinho de 2008: o nome e a camisola ainda são os mesmos, a magia, a classe e a competência é que mudaram.

      E por exemplo, será que algum dia nos esqueceremos de ver os então fantásticos pontas-de-lança Nuno Gomes e Jimmy Hasselbaink a marcar golos vestidos de xadrez? Ou do Boavistão de Jaime Pacheco com nomes como Litos, Pedro Emanuel, Petit e Ion Timofte?

      Não podemos deixar de sentir uma enorme nostalgia ao constatarmos que o Boavista dos inícios da década de 90 era um emblema que se intrometia no domínio dos 3 grandes, sendo que hoje em dia trabalha para não descer e se revela incapaz de segurar jogadores como Linz, João Pinto ou Zé Manel, sendo obrigado a vê-los partir facilmente para um dos seus rivais. Ironicamente, quase apetece dizer que a pior coisa que aconteceu ao Boavista foi mesmo… sagrar-se campeão! 

      Mas a realidade do Boavista é a realidade do futebol português. E, por muito que custe, temos que nos acostumar a ela. Actualmente as equipas portuguesas apenas conseguem contratar no mercado sul-americano e em certos mercados do Leste europeu. E mesmo aí já enfrentam a concorrência de equipas gregas, turcas, ucranianas e russas, a maioria controladas por investidores milionários. Isto para não falar dos KakásMessisGiovannis dos Santos e Patos deste mundo que viajam directamente do futebol júnior da América do Sul para os grandes colossos europeus. Claro que, de quando em vez, podemos pescar um ou outro Anderson. Mas logo passados dois anos será inevitável que apareça um “grande” europeu a pagar um cheque chorudo por esse jogador, encolhendo simplesmente os ombros por não o ter ido buscar directamente à favela.

      Além disso, quando equipas cipriotas vêm recrutar os melhores jogadores dos clubes médios portugueses para as suas formações, é inevitável que nos apercebamos que algo mudou. Dificilmente poderemos ver actualmente em Portugal jogadores titulares da selecção romena como o era Ion Timofte, esse grande artista, muito semelhante ao brasileiro Rivaldo na sua forma de jogar – note-se que o Benfica acabou de contratar o lateral-esquerdo da selecção da Roménia… sub-21! E quem fala em Timofte fala nos internacionais búlgaros Kostadinov e Balacov, no polaco Juskowiak, nos brasileiros Mozer, Valdo, Ricardo Gomes e Branco, nos suecos Schwarz e Thern, nos russos Iuran, Kulkov e Mostovoi, no holandês Valckx, nos nigerianos Amunike e Yekini.

      Claro que para todos os problemas há soluções. E basta olhar para o campeonato francês para perceber isso. Uma forte aposta no mercado africano e na formação a sério têm feito maravilhas pela selecção gaulesa. As equipas portuguesas terão de mudar mentalidades e perceber que nem o habitual mercado brasileiro pode ser viável num breve futuro. 

      Sendo assim, no Bessa, em versão Intercalar, o Porto demonstrou toda a sua superioridade. Deu-se ao luxo de descansar quase todos os titulares e não perdeu pontos para os seus mais directos rivais. A caminhada do FC Porto para o tri afigura-se cada vez mais como um belo passeio à beira-mar. O tour europeu, iniciado há pouco em Gelsenkirchen, pelo contrário, parece um trekking bastante complicado, com muitas escarpas e precipícios na jornada. O que me leva à seguinte dúvida: será este Porto equipa a mais para Portugal e equipa a menos para a Europa? A ver vamos. A recepção ao Schalke é já hoje e o Covil do Dragão mal pode esperar. Este é o nosso dia D. Vamos para cima dos alemães!  

Rodrigo de Almada Martins

 

4 Responses to “Porto Sentido V – “A dúvida que nos assalta””

  1. NMOliveira Says:

    “Equipa a mais para Portugal, equipa a menos para a Europa”. Ora bem! Mesmo com o azar a ter papel importante nesta eliminação, tenho especialmente pena pelo Lisandro, Lucho e Paulo Assunção, únicos jogadores de dimensão internacional desta equipa.

    Grande abraço ao excelente cronista e aos adms deste bom blog de futebol.

    NMO

  2. Rodrigo de Almada Martins Says:

    Ao leitor NMOliveira um muito obrigado pelas palavras que me dirigiu.

    Realmente houve muito azar à mistura, entre outras coisas. O Schalke é inferior ao Porto, apesar de não ser tão fraco como muitos querem fazer crer. Rafinha, Ernst (grande jogador!), Jones, Kurany, Rakitic (que jogou muito pouco tempo) e Bordon seriam certamente presenças num 11 ideal da BWIN Liga, por exemplo.

    Prometo analisar este fantástico jogo na próxima crónica.

    Rodrigo de Almada Martins

  3. Pedro Sousa Says:

    E, infelizmente para nós, o Neuer também…

  4. mitchmanu Says:

    Já há muito tempo não via ninguém na imprensa, blogosfera ou qualquer outra comunicação social a falar do Boavista com pés e cabeça, sem ser a atacar cegamente - tolhidos de inveja? - e a analisar coisas sérias.

    Bom blog. Parabéns.

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