Porto Sentido VI – “Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?”
Depois de sair do metro olho para o relógio: 20h10. Ainda é cedo para ir para o meu lugar anual, pelo que me encaminho para o Porta 29, o café onde os portistas costumam enganar os nervos à medida que o apito inicial do árbitro se aproxima. Cheira a Liga dos Campeões. É difícil de explicar, mas os jogos europeus encerram um encanto especial. Há algo de nobre e de histórico em duas equipas de países diferentes se defrontarem a 2 mãos, a eliminar.
Num dos ecrãs do tal café reparo que Mirko Slomka optou por deixar o irrequieto Rakitic e o possante Asamoah no banco, apostando num 11 mais defensivo. Isso favorece-nos, penso para os meus botões. Sempre ouvi dizer que quem joga para empatar acaba por perder.
Depois do café, para aquecer a garganta (nunca se sabe se vai ser preciso puxar pela equipa…), dirijo-me para o meu sector. Quando, por fim, começo a vislumbrar o relvado e todo o esplendor do nosso estádio completamente lotado realizo que estou mesmo num jogo da Champions. Nos oitavos-de-final da mais importante competição de clubes do Mundo.
O jogo começa e estamos nitidamente com sinal mais. Trocamos bem a bola, com intensidade, o público está a vibrar com a atitude desinibida da equipa. De repente vem-me à memória o Porto – Manchester da época de Gelsenkirchen. O jogo parece-me semelhante. Bosingwa a cavalgar pelo lado direito tal qual Paulo Ferreira o fez uns anos atrás. Só que desta vez estamos na 2ª mão da eliminatória. E em desvantagem. E não temos McCarthy. Nem Deco. Nem Ricardo Carvalho. E num ápice reparo que Bosingwa é melhor que Paulo Ferreira; que este Lisandro é melhor que o McCarthy; que Lucho se equipara a Deco; que Bruno Alves não está assim muito distante de Carvalho; que Assunção, por exemplo, é imprescindível, tal qual era Costinha.
2004 já lá vai. Estamos no ano da graça de 2008 e a ambição é a mesma: ganhar! O Lisandro já poderia ter marcado logo aos 12 minutos, mas o guarda-redes fez muito bem a mancha. Ouço atrás de mim uns amigos meus a questionarem-se sobre se este guarda-redes não é o tal que foi apanha-bolas na final entre Porto e Mónaco. Sim, é ele. E todos nós estivemos em Gelsenkirchen, mas na altura ninguém queria saber do apanha-bolas para nada. Não que interesse muito, mas alguém se lembra que o rapaz se chama Neuer. “É bom guarda-redes”, ouço dizer.
Atenção! Jogada pela direita, a plateia azul e branca levanta-se para ver melhor este foguete supersónico que dá pelo nome de Bosingwa. O lateral vai à linha e cruza… bola na cabeça de Tarik, já estamos quase a festejar, não pode falhar…a bola vai para a baliza, já se grita GOOL… mas não! O tal ex-apanha-bolas defende inacreditavelmente para canto! Defesa monstruosa! Como é possível Tarik?
Mas o público não desarma. Está tudo confiante de que a noite é nossa. Os alemães resumem-se a bolas bombeadas para Kuranyi, sem qualquer nexo. Os médios Jones e Ernst não conseguem pegar no jogo. Por isso, há que acreditar! No íntimo penso que este Schalke afinal é um embuste. Tem alguns bons jogadores, é certo. São fortes fisicamente, correcto. Defendem-se bem. Mas a verdade é que aqueles 15 minutos iniciais na Alemanha parecem-me uma mentira completa. Não sei o que terá sido: se o público alemão a puxar pela sua equipa; se a invenção de Jesualdo ao colocar João Paulo a defesa direito; se o mau início de Fucile; se uma estratégia desesperada dos alemães que, sabendo serem inferiores ao FC Porto, optaram por essa fórmula do “vamos para cima deles, vamos comê-los logo no início, vamos surpreendê-los porque só assim lhes podemos ganhar”!
O intervalo chega e o Porto tem cerca de 3 oportunidades claras de golo. O estádio está ansioso, nervoso… mas crente. É hora de ir discutir pormenores sobre o jogo com os amigos. E também de ir junto do sector dos adeptos do Schalke na tentativa de tentar fazer uma troca de cachecóis. Depois de algumas “negas” lá aparece um senhor disposto a efectuar a troca. E aí está mais um cachecol para a minha colecção!
A 2ª parte começa. Nestes 45m temos que dar o tudo por tudo. Não merecemos estar em desvantagem. Já merecíamos um golo. Mas há que batalhar pela sorte. Vamos para cima deles!
Contudo, esta crença na vitória é abalada por um adepto mais perspicaz: “reparem, ali ao fundo, o Bosingwa não está em condições, vai ter que sair”. Os olhares encaminham-se para lá. Dá-se o pior dos cenários. Bosingwa ressente-se da lesão e tem que sair. E agora? Como vamos atacar em velocidade? E logo o Bosingwa, que estava a ser dos mais perigosos! O quê? Mariano para o lugar dele? O que se passa com Jesualdo? Confesso que não percebo. Mas vamos dar o benefício da dúvida ao homem. Afinal de contas, hoje não é dia de protestar, mas sim de apoiar a equipa.
Livre para o Porto. Vai bater directo? Não! Sai cruzamento para o segundo poste, o Lucho ganha para a pequena área onde aparece Tarik a… tem que ser golo… o estádio já está de pé…esta tem que entrar…gargantas prestes a explodir… NÃO! O guarda-redes defende! O tal Neuer, não é? Que defesa impossível! Mas o Tarik não está isento de culpas! Alguns adeptos começam a praguejar o marroquino. Falhou dois golos certos! O Henri Michel bem tem razão. Este Tarik é mesmo “o homem dos grandes golos”. Parece que só consegue marcar golos geniais. Os fáceis não são para ele. Se é para entrar na história, tem que entrar em grande! A facilidade não o atrai. Mas Jesualdo percebe e bem que nestas alturas este tipo de jogadores são dispensáveis. Por isso decide lançar Farias, por troca com o extremo do Magrebe.
Ao meu lado ouço frases do estilo “já vi tudo, hoje vai ser daqueles dias em que por mais que tentemos ela não entra”, “hoje a sorte não quer nada connosco”; “podíamos estar ali mais 4 horas que ela não ia entrar”. Mas eu, pelo contrário, estou feliz. Feliz porque afinal este Porto é mesmo bom! Temos equipa para encostar uma formação europeia às cordas. Os pupilos do Mestre Jesualdo Ferreira conseguem fazer com que os adeptos se embrenhem no jogo, gritando, assobiando, berrando pela equipa. De facto, há muito que não via assim o Dragão: entusiasmado. São estes jogos que motivam os adeptos e os apreciadores deste desporto. E eu, sendo adepto e apreciador ao mesmo tempo, estou duplamente feliz. Estou totalmente concentrado no jogo. No espectáculo.
Helton acaba de defender com as mãos fora da área, liquidando um contra-ataque dos visitantes. Quase todos no estádio se apercebem. Não é sancionado. A arbitragem está a ser esquisita. O juiz da partida assinala falta por tudo e por nada. Parece pouco seguro a apitar, pouco confiante. Mas falemos de futebol!
Já só faltam 15 minutos para o término do desafio. Confesso que as sucessivas defesas do Neuer me tiram grande parte da esperança numa mudança de rumo dos acontecimentos. Nem da pequena área, nem de longa distância, nem no jogo aéreo os portistas conseguem introduzir a bola na baliza do Schalke. O público quebrou muito. O estádio está mais silencioso, mais apático. Já poucos acreditam numa reviravolta. E ainda vou acreditando, mas de forma muito ténue. É pena! Somos a melhor equipa, mas falta-nos aquilo que tem faltado nos últimos tempos do futebol português: o killer instinct, nas palavras de Sir Bobby Robson. Frente às balizas como que um medo cénico se acerca das equipas nacionais e transforma avançados de barba rija em bebés de colo.
Faltam 8 minutos. Fucile tem uma recepção péssima e como resultado disso tem uma entrada violenta, em carrinho. Um amarelo, certamente. O Sr. Howard Webb decide-se pela amostragem de um vermelho. Que se pode dizer? A mim parece-me que a cor acertada seria um laranja. Mas essa tonalidade em futebol não existe, a não ser nas camisolas da Holanda. É vermelho e há que lidar com isso. As esperanças desvanecem-se de vez. Com menos um, a faltar tão pouco tempo para o apito final, será certamente o Schalke a ser colocado entre as 8 melhores equipas europeias.
Mas este Porto não desiste! Estou orgulhoso! Com menos um e continuamos a carregar no acelerador, a dominar os germânicos. O público entusiasma-se mais pela reacção à adversidade por parte dos atletas do que pela crença numa reviravolta. O incentivo à equipa é uma espécie de prémio aos atletas pela sua bravura, pelo seu querer.
Bola na área dos alemães, tenho que me levantar para ver porque de repente todos se levantam. Consigo vislumbrar o Lisandro a receber a bola de costas, a rodar e a rematar de forma fulminante… e a bola a entrar, como que com fogo, na baliza de Neuer. O que a seguir se seguiu foi das maiores festas que vivi no Estádio do Dragão, talvez só comparável à tal eliminatória com o Manchester ou àquele cabeceamento de McCarthy que derrotou o Chelsea de José Mourinho. É indescritível! Abraços, saltos, gritos, choros, toda uma libertação de energia (alguns companheiros de lugar anual até aproveitam para darem uns empurrões na “vizinha do lado”, que esteve a noite toda a dizer mal da equipa!), uma explosão de 50 mil vozes – talvez menos porque alguns adeptos com menos fé tinham já abandonado o recinto – em uníssono, gritando golo! Nem acredito! Foi GOLO do Porto!
“Lisandroooo!!!” grita o speaker de serviço, ao que a multidão responde com todas as ganas: “López!!!!”. Isto repetido por mais duas vezes. E assim se cria um mito no Dragão. Mais um. Lisandro López entrou definitivamente na galeria dos imortais do meu clube. Só me lembro de um entusiasmo semelhante aquando do regresso do Ninja Derlei aos relvados, após prolongada ausência devido a lesão. Foi numa recepção ao Alverca (equipa contra a qual curiosamente se tinha lesionado no fim da 1ª volta) que Derlei voltaria a pisar um relvado muitos meses após a grave lesão no joelho para substituir já não me recordo quem. Ainda hoje não esqueço o Dragão todo de pé, a gritar “Ninja, Ninja, Ninja”, antes do brasileiro entrar no rectângulo verde, de forma triunfal. Nos poucos minutos que esteve em campo, Derlei mandou uma bola ao poste. Ainda hoje penso que, se essa bola tivesse entrado, o Dragão tinha vindo abaixo. Mas como todos sabemos, Derlei não se incomodou e, no jogo seguinte, na Corunha, na meia-final da Liga dos Campeões, faria o melhor jogo da sua vida, na minha opinião, marcando o penalty que colocou o FC Porto na segunda final da Liga dos Campeões da sua história.
Depois do golo de Lisandro vejo algo muito semelhante. Num sprint realizado com bola junto à linha (junto da bancada onde me encontro), todos nos levantamos automaticamente para aplaudirmos o astro argentino. É o novo ídolo do Dragão este jogador com mais alma que muitas equipas. Todos gritam o seu nome. Pode até vir a jogar, daqui a uns anos, nos rivais de Lisboa, mas no coração dos portistas Lisandro já tem um lugar assegurado. Para sempre.
Vem o prolongamento. O Porto continua a procurar o knock-out ao Schalke. Pelo contrário, os alemães querem vencer aos pontos. Mas o gancho decisivo dos portistas tarda em aparecer. Farías imita Tarik, ou seja, desperdiça oportunidades.
Mas dá prazer ver um embate destes. O Schalke é uma equipa muito forte também. São fortes e tacticamente não erram. Rafinha, Bordon, Westermann, Ernst, Jones e Kuranyi são jogadores de classe internacional. E que gosto dá ver o duelo entre Bordon e Lisandro! E que gosto dá ver a classe de Paulo Assunção, a subtileza de Lucho, a raça e técnica de Lisandro, a garra e vontade de Meireles, as pazes entre Mariano e a massa adepta (e que jogo está a fazer este argentino!), a segurança e eficácia de Alves e Emanuel. Quaresma, com o passar dos minutos, vem pegando mais no jogo. É agora que precisamos do Harry Potter, mais do que nunca!
O estádio motiva-se e motiva os jogadores. Os adeptos sentem que também fazem parte deste jogo, que podem ser o 12º jogador, que podem participar nesta batalha. Sim, porque lá dentro já não se trata somente de um jogo de futebol. Trata-se de uma batalha pela sobrevivência, mesmo que os músculos já estejam a latejar. Os jogadores dão tudo o que têm. Os jogadores correm com alma, à falta de forças. Ali já não há homens pagos para jogar. Há homens a lutar pelo orgulho, pela vitória, pelo seu grupo, pelo seu clube, pelo seu país. O mundo lá fora não existe. Ou se existe está concentrado ali, no Dragão. Tudo o resto está hibernado. Só este jogo interessa e nada mais.
Infelizmente Quaresma não consegue concretizar em golo aquela jogada. Roubou bem a bola mas depois faltou-lhe classe e calma para facturar, para a fazer passar através do gigante Neuer. A responsabilidade pesou muito. Se tivesse feito golo, Quaresma estaria agora com uma transferência assegurada para um grande colosso europeu. Assim sendo, fica a sua imagem de desilusão e incapacidade para virar o rumo dos acontecimentos. A ver vamos qual vai ser o futuro deste número 7.
E infelizmente o chapéu de Marek Cech levava um pouquinho de força a mais. E assim vamos para os penalties.
Antes dos penalties vive-se um momento fantástico. Alguém decide pôr a tocar o hino do Futebol Clube do Porto. Magnífico! Momento sublime! Cachecóis esticados e os portistas a cantarem a uma só voz. Olho para os lados, para as caras das pessoas, para me certificar de que todos compreendem que estamos a viver um momento único, que se está a escrever uma página memorável na história deste grande clube. Se existe definição para o que é “ser portista”, essa definição vem acompanhada destas imagens. O que ali se passou não se explica. Sente-se.
Miguel Sousa Tavares disse uma vez, numa crónica, que existe o instante mágico, o instante iniciático, que sela para sempre o amor irracional entre um homem e um clube de futebol, um amor para a vida, que ninguém, jamais, poderá alterar. Enfim, uma paixão inexplicável, referindo-se ao primeiro jogo que o seu filho assistiu no Estádio das Antas.
Só quem já passou por este instante iniciático, por este ritual de iniciação, é que é capaz de compreender o que significou aquele momento. Eu tive a sorte de o poder compreender bem, pois tive um avô que, há cerca de 20 anos, me desvendou todos os mistérios do futebol. Assim, a partir daquele entoar de hino a plenos pulmões, o Porto podia perder que, mesmo assim, eu sairia feliz do estádio.
Bruno Alves e Lisandro permitiram que Neuer defendesse 2 penalties e colocasse o Schalke 04 nos oitavos da Champions. Foi injusto. Mas mesmo assim eu saí feliz do Dragão. E com a certeza de que mais nenhum clube no Mundo tem esta alma. Ser Dragão é isto. O futebol é isto. E é por isso que é uma paixão. Afinal de contas… como diz aquela música dos Skank, Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?
Rodrigo de Almada Martins
Maro 24th, 2008 at 13:43
Fiquei arrepiado ao ler este texto. Também eu sou um portista desde pequenino, também eu já vivi muitas noites destas. Felizmente, digo eu, independentemente do resultado final. Win some, lose some. Já saí das Antas a chorar como uma criança ou aos saltos de ciontentamento pela rua fora. E essa exaltação que provoca em alguns de nós é o que faz do futebol o maior espectáculo-desporto-jogo do mundo!
Obrigado por me lembrares alguma destas noites.
Abraço, NMO
Maro 25th, 2008 at 2:08
Mais um fantástico texto do meu não menos fantástico amigo Rodrigo. Só não gostei da passagem algo proféctica em que se fala do Lisandro a vestir de verde ou vermelho. Esperemos que nos dê muitas alegrias antes disso!
Abril 1st, 2008 at 17:21
Nunca assisti a um destes. Ao ler a tua crónica vivi o jogo de forma intensa.Cortou-me a respiração. Houve aqui em casa alguns olhos cheios de água por viverem o jogo novamente ao ler esta crónica.
Que orgulho ter amigos assim.
Deu-me até pena não ser portista.
Espectacular.
Um abraço
Paula